“Cada macaco no seu galho…”

Zulu Araujoabril 7, 20206 min
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E lá se foi um dos últimos grandes artistas populares que encantaram a Bahia e o Brasil, no século XX. Era popularmente conhecido como Riachão, embora nascido Clementino Rodrigues, no ano de 1921, portanto com 98 anos de idade, muito bem vividos. Esse apelido, ganhou ainda pequeno, por conta das arruaças que fazia no bairro onde morava. Apesar de seu corpo franzino e sua pequena estatura, era briguento e não levava desaforo pra casa. Daí não ser um riacho pequeno onde qualquer um poderia atravessar. Era um “Riachão” e que dava trabalho para qualquer um que tentasse atravessá-lo.

Ele era da linhagem artística de Gordurinha, Jackson do Pandeiro, Batatinha, Ederaldo Gentil, Jamelão e tantos outros. Tinha o samba na veia e o ritmo no coração. Riachão figurava entre os bambas do samba da Bahia e do Brasil. E não era sem razão. Foi autor de músicas marcantes a exemplo de: “Cada Macaco no seu galho”, “Retrato da Bahia”, “Vá morar com o diabo”, “Umbigão da baleia” interpretadas por figuras como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Cássia Eller, Beth Carvalho e Jackson do Pandeiro.

Conheci Riachão, não nas rodas de sambas ou nos programas da Rádio Sociedade da Bahia, nos quais ele fazia um sucesso danado, na década de 60, mas nas subidas e descidas dos elevadores do BANEB (Banco do Estado da Bahia), onde funcionava, à época o DESENBANCO (Banco de Desenvolvimento do Estado da Bahia). Éramos, ambos, contínuos (nome sofisticado que dava para os Office Boys de então) do Baneb e do Desenbanco. Eu com meus 20 e poucos anos e ele já com seus cinquenta e tantos.

Nos primeiros momentos não tinha muita simpatia por ele. Ficava indignado com aquela alegria esfuziante que ele possuía e irradiava por onde passava. Bastava entrar no elevador e ele puxava uma batucada e quase sempre cantarolava:  “Você chega na praça Cayru e olha pra cima o que é que vê, vê o elevador Lacerda que vive a subir e a descer/ É o retrato fiel da Bahia, baiana vendendo com alegria, coisinha gostosa de dendê, acarajé”…” e todos caiam na gargalhada. Eu, um comunista empedernido e enfiado na luta contra a ditadura até o pescoço, achava aquilo um folclore, um deboche.

Com o tempo descobri que o errado era eu. Na verdade, Riachão era um dos maiores artistas populares do Brasil. Ele tinha ritmo, suingue, criatividade, malandragem e sobretudo alegria. Alegria que atesta que sisudez nunca foi sinônimo de seriedade. O que ele não tinha era a oportunidade e o reconhecimento do seu talento, coisa aliás muito comum até os dias de hoje. Passei a admirá-lo e cantarolar suas músicas, não apenas nos elevadores do Baneb, mas nas ruas de Salvador, até os dias atuais.

Ainda bem, que o sucesso pra ele chegou em vida, materializado que foi na música “Cada macaco no seu galho”, eternizada por Gilberto Gil e Caetano, quando foram para o exílio. Riachão merece todas nossas homenagens, não apenas por ter sido um grande artista, mas também pelo papel de griot da cultura negra e popular da Bahia e do Brasil, que tão bem desempenhou.

Infelizmente nem eu, nem a maioria dos seus fãs e admiradores puderam estar presentes nesta sua última caminhada pelas ruas de Salvador, pois o Coronavirus não deixou. Mas, tenho certeza que sua música será eterna e nos alegrará por muitos e muitos anos, até porque, o meu, o seu e o nosso galho é na Bahia.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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