A repercussão gigantesca causada pelas declarações racistas do jornalista William Waack da Rede Globo, nos bastidores de uma reportagem, divulgada na semana passada, deixou-me a pensar sobre o paradoxo e o enigma que o Brasil vive atualmente. De um lado a fala do jornalista representa em verdade o retrato mais bem acabado do racismo à brasileira. Na sua fala, bem como no seu riso irônico e prazeroso, refestelando-se do que havia afirmado, estavam presentes o desprezo, a arrogância e o ódio que os racistas brasileiros carregam no peito desde os tempos da Casa Grande e Senzala.

Na expressão usada por ele “É preto. Isto é coisa de preto”, via-se claramente  a elite brasileira se apresentando de forma desnuda, sem retoque ou maquiagem.. Na cena, não havia disfarce, nem conserto possível. Era a elite bem nascida, culta, rica, famosa, porém absolutamente racista A frase foi dita com tanta força, tanta convicção que não havia como explicar ou justificar. Daí, não restar outra atitude a Rede Globo, para preservar minimamente seu discurso midiático de respeito a diversidade humana e cultural que não o fosse o afastamento.

Para completar a semana, outro fato explosivo sacudiu as redes sociais causando estupefação e manifestações indignadas por todos os lados. Refiro-me ao uso indevido do conceito de “trabalho escravo” feito pela Ministra dos Direitos Humanos do atual governo, para justificar seu pedido de aumento salarial. O estrago foi maior ainda, por estarmos no mês da Consciência Negra, período consagrado para que ressaltemos as demandas, reivindicações e lutas que a população negra brasileira trava ao longo dos tempos, por igualdade, além de reverenciarmos o líder maior Zumbi dos Palmares. E esta polêmica, só serviu para alimentar as posições racistas, preconceituosas e discriminatórias de boa parte da imprensa brasileira, de que os negros não querem nada mais do que obter os mesmos privilégios que a elite possui.

Mas, a reação da sociedade brasileira aos dois fatos e em particular ao do jornalista William Waack, foi de encher o peito de esperança. Esperança de um Brasil diverso, plural, democrático e antirracista. Exemplo disto foi a adesão maciça a Campanha liderada pela Revista Raça, com o post “Para nós da Raça, coisa de preto é isso”, (mais de 600 mil visualizações, compartilhamentos e mensagens de apoio) em que lembrava ao país a face negra de inúmeras personalidades e anônimos que contribuíram e contribuem  decisivamente para o desenvolvimento da humanidade.

E a reação não se deu apenas entre as vítimas do racismo.  As manifestações vieram de todos os lados, pretos, mestiços, brancos, asiáticos, indígenas, todos se irmanaram no combate a esta praga que ainda se faz presente em nosso país. Era o Brasil de carne e osso, dizendo – nós somos gente, nós somos seres humanos e exigimos sermos tratados com a dignidade e o respeito que todo ser humano merece.

Ou seja, há luz no fim do túnel. O que precisamos é estar com olhos e ouvidos atentos e disposição para recuperar o tempo perdido, consumidos é bem verdade, nos erros que cometemos e disputarmos palmo a palmo, a narrativa que pretendemos imprimir ao nosso país. Até porque, não será com os racistas e conservadores de plantão que recolocaremos o Brasil nos trilhos. E neste sentido, após essa semana, não há, nem resta a menor dúvida:  Democracia, Igualdade, Liberdade e Fraternidade, também é coisa de preto.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Zulu Araujo

Foi Presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

 

 

*Este artigo reflete as opiniões do autor. A Revista Raça não se responsabiliza e não pode ser responsabilizada pelos conceitos ou opiniões de nossos colunistas

Comentários

Comentários