Discurso de Ódio: Quando não mata, fere

Zulu Araujojulho 10, 20206 min
https://revistaraca.com.br/wp-content/uploads/2020/07/Discurso-do-odio-1280x935.jpg

A decisão adotada pela direção do Facebook e do Instagram, em eliminar das redes sociais 73 perfis falsos, com mais de 2 milhões de seguidores que disseminavam o ódio, o assassinato de reputações e a violência por meio de Fake News, é das mais alvissareiras para quem preza a democracia e o compromisso com a verdade. Para tanto, foi necessária uma mobilização internacional fortíssima, que contou com a participação de organizações sociais e personalidades de toda ordem, culminando com a adesão sem precedentes de grandes empresas como a Coca Cola, Pepsi Cola, Unilever, Adidas, Puma, (Omo, Kibon e Maizena no Brasil), Ford, Starbucks, Microsoft, Pfizer, Mozilla, Vans, SAP e centenas de outras multinacionais.

Simples a razão dessa decisão: o discurso do ódio, quando não mata, fere irremediavelmente pessoas, instituições e causas que representam conquistas da humanidade, a exemplo do combate ao racismo, da Pandemia, da misoginia, da homofobia e da destruição do meio ambiente. O discurso do ódio banaliza a vida, estimula a cultura da morte, promove a violência e intolerâncias de todas as ordens, particularmente a intolerância religiosa.

E as grandes vítimas desse processo deletério no plano social são as populações negras, indígenas e pobres das periferias das grandes cidades. No Brasil, essa prática tem tomado proporções inimagináveis, destruindo a tudo e a todos. Possui envolvimento das altas autoridades do país que deveriam cuidar da proteção do nosso povo e não enganá-lo com procedimentos torpes.

É a partir desse discurso que se justifica e legitima o assassinato de Marielle Franco (RJ), dos garotos João Pedro (RJ) e Guilherme Silva, (SP), do pedreiro Amarildo (RJ), os 80 tiros no músico Evaldo Rosa dos Santos, (RJ) e de mais 31 mil jovens negros mortos, todos os anos no Brasil, além do achincalhe do STF, o pedido de fechamento do Congresso Nacional, a defesa do Ato Institucional n° 5 e o retorno da Ditadura Militar, assim como o desprezo criminoso pela população pobre diante da Pandemia do Coronavirus.

Segundo a apuração realizada pelo Laboratório Forense Digital DFR, empresa contratada pelo Facebook, para investigar os atos criminosos nas redes sociais, as mensagens e posts divulgados nas páginas removidas, divulgavam conteúdo falso, leviano e mentiroso, cujas atividades, incluíam a “criação de pessoas fictícias fingindo ser repórteres, publicação de conteúdo e gerenciamento de páginas fingindo ser veículos de notícias”.

Mais do que isso, veio à luz o que todos já desconfiavam: as páginas falsas eram controladas e administradas por assessores da Presidência da República, dos Gabinetes de Deputados Federais, Estaduais e Vereadores do PSL, assim como por assessores de um Senador da República, além de ser financiadas por grandes empresários, conforme vinha afirmando o inquérito do STF. Isto é gravíssimo, pois coloca em risco o Estado Democrático de Direito no país.

Foi preciso mexer no bolso do Mark Zuckerberg, para que ele compreendesse a dimensão do estrago que suas plataformas estavam causando à sociedade mundial ao chancelar o discurso de ódio como liberdade de expressão.  Afinal, aquilo que parecia “liberdade de expressão” estava exercitando o poder de vida e de morte até mesmo em eleições de países importantes como os Estados Unidos e Brasil.

Mas, o perigo continua e precisamos nos mobilizar para dar sustentação as investigações que estão sendo realizadas pela CPMI das Fake News no Congresso Nacional e pelo Inquérito que está sendo conduzido no STF, para que todos esses criminosos sejam exemplarmente punidos. Afinal, a Democracia, não pode ficar a mercê desses irresponsáveis.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Comentários

Comentários

Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

https://revistaraca.com.br/wp-content/uploads/2017/08/logo-scaled.jpg

Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

Comentários

Comentários