Revista Raça

Paginas Pretas

Entrevista com Edgard Radesca, que fez do jazz um grande negócio

  • Autor: Redator

  • Publicado em: 14/10/2016

  • Comentários:

Veja a história de Edgard Radesca, que está à frente do badalado Bourbon Street, em São Paulo, considerada a maior casa de jazz do Brasil.

 

Texto: Maurício Pestana | Foto: Rafael Cusato |Adaptação Web Sara Loup

Edgard Radesca | Foto: Rafael Cusato
Edgard Radesca | Foto: Rafael Cusato

A ideia era trazer para o Brasil um espaço que recriasse toda a atmosfera de New Orleans, nos Estados Unidos, considerada o berço do jazz. Persistente como empreendedor e acreditando na realização de um grande sonho. O surgimento e o sucesso do Bourbon foram tamanhos que, uma vez por ano, a casa realiza um festival de jazz. Em entrevista com a RAÇA, ele nos conta como foi abrir este negócio:

Raça Brasil: Como surgiu o Bourbon Street?

Edgard Radesca: Luis Fernando Mascaro era meu cunhado, ele morreu em 2000. Além de veterinário, mais do que tudo, ele era músico, baixista e, desde moleque, tocava em festinhas, aquela coisa toda. Um dia pisou em New Orleans e ficou encantado com a cidade, com a atmosfera, o astral, uma cidade que, em primeiro lugar, está sempre em festa. Ele ficou maravilhado com aquela atmosfera e disse: “Como músico, gostaria de trazer isso para o Brasil, a magia dessa cidade que respira música negra o tempo todo.

R.B: E você, como entrou nessa história?

Edgard: Eu tinha uma empresa de consultoria e nós éramos parentes, nos encontrávamos para falar sobre música, que é uma coisa que eu sempre gostei muito, principalmente as de raízes negras.  Um dia, às cinco horas da manhã, viramos sócios e resolvemos começar isso aqui para valer. Fomos para New Orleans juntos para tentar buscar o apoio da cidade. Tínhamos dez minutos com o assessor de relações internacionais, Iris Labourd, um negro simpaticíssimo e elegante que nos tratou polidamente. Fomos prontos para fazer uma apresentação, falamos para ele que aquilo era uma ideia de levar para São Paulo a arquitetura, a comida, as bebidas e, mais do que tudo, a música e o astral negro, alegre e vibrante da cidade de New Orleans.

RB: A princípio ele gostou do projeto?

Edgard: Ele foi ouvindo aquilo e se impressionando. E a gente falando que, se a ideia desse certo em um lugar improvável como São Paulo, o modelo poderia ser replicado em Paris, Londres, Tóquio... Sei que os dez minutos diplomáticos que tínhamos foram embora. Nós o surpreendemos com o projeto, o cara foi fazendo perguntas e se entusiasmando. Aí ele pegou o telefone e ligou para o prefeito da cidade na nossa frente.

RB: E então veio o apoio institucional?

Edgard: Bem, o prefeito estava fora da cidade e o Iris Labourd disse a ele: “Estou aqui com os brasileiros com uma ideia maravilhosa, é uma coisa para promover a cultura de New Orleans, você tem que vir conhecê-los.” Fomos convidados para voltar no dia seguinte. Já tínhamos explicado que queríamos uma ajuda financeira e ficamos animados. No outro dia lá estávamos nós novamente. O Iris chegou e disse que tinha uma boa surpresa. O prefeito, que achou o projeto maravilhoso, não pôde ir, mas fez questão que nos fosse entregue um envelope.

RB: O que tinha no envelope?

Edgard: Duas coisas: uma carta do prefeito dando apoio total e irrestrito ao projeto e uma lista de nomes e telefones em anexo. “Não vamos poder dar o auxílio financeiro para vocês, mas o prefeito quer ajudar na medida do possível.

RB: E o dinheiro?

Edgard: Vendi um terreno, o Luis vendeu não sei o que, e juntamos uma quantia que dava para fazer 70% da obra. Passaram dezembro, janeiro e, em fevereiro de 1990, veio o plano Collor, congelando o dinheiro que a gente tinha, não dava para fazer nada. Mas resolvemos continuar a obra com a moeda escritural. Todo mundo fazia promissória para o outro, a economia começou a girar de novo, mas era muito devagar, aí que entraram os outros sócios. Construímos a casa em quatro anos e começamos essa trajetória em 13 de dezembro de 1993.

R.B: Nesses quase 20 anos, qual foi para você o momento de maior emoção na casa?

Edgard: Foi a inauguração da casa, muita emoção, é claro! Quando o B.B King subiu ao palco, nós nos abraçamos e choramos. Era uma coisa que você estava sentindo, que estava realizando. Trabalhamos anos e tivemos um monte de dificuldades. Estávamos realizando um sonho. Foi um momento muito emocionante. As famílias todas se envolveram bastante e eu sou muito de família. Tinha uma sensação de enorme prazer e de estar abençoado por termos a capacidade e a felicidade de fazer.

RBJazz é um bom negócio?

Edgard: Como diria o grande escritor Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Eu diria que como negócio, estamos em funcionamento há 19 anos, e esperamos ficar por muito tempo ainda. E peço a Deus que quem um dia me suceder seja alguém que goste de música, é um negócio movido à paixão e, logicamente, ele tem que ficar vivo, tem que ganhar dinheiro. Como propagador de cultura, o Bourbon tem uma dimensão bem maior que essa casa, ele é tudo mais que a gente já fez e fará.

Quer ver essa e outras entrevistas e reportagens da revista? Compre essa edição número 169

Comentários

Comentários