Confira trechos da entrevista com o músico Jards Macalé

 

TEXTO: Amilton Pinheiro | FOTO: Fábio Guinalz | Adaptação web: David Pereira

Entrevista com o cantor Jards Macalé | FOTO: Fábio Guinalz

Entrevista com o cantor Jards Macalé | FOTO: Fábio Guinalz

Infelizmente, nosso papo com Jards Macalé, no Sesc Belezinho, em São Paulo, foi rápido (o músico iria se apresentar dali a 40 minutos). Atencioso e bem à vontade, nem de longe lembrava a figura do artista avesso às entrevistas. Ao contrário, contou casos marcantes e engraçados, como um episódio com Gal Costa. “Minha grande amiga Gal, claro que ela teve uma importância na minha carreira, me tornou mais conhecido, fui de alguma forma absorvido, “aceito” naquela loucura toda da época. Lembro de uma viagem que fiz com ela para Santos, no carro dela. Gal iria visitar a cantora Simone, sua amiga. Escutávamos a música As Curvas da Estrada de Santos, de Roberto e Erasmo Carlos. Gal pisando no acelerador e entoando a letra. Foi mágico, mas ao mesmo tempo senti um pouquinho de medo daquelas curvas perigosas de Santos”, relembra. Ainda sobre Gal, fiquei observando Jards na passagem de som cantando uma de suas músicas mais conhecidas, Hotel das Estrelas, composição dele com Duda (“Dessa janela sozinha/Olhar a cidade me acalma/Estrela vulgar a vagar/Rio e também posso chorar/ Rio e também posso chorar...”). Gal cantou essa mesma canção em um show de 1972. Depois a música foi gravada por outros artistas. A apresentação de Jards Macalé foi marcada pela cumplicidade entre ele e seus parceiros antigos –Tutty Moreno (bateria), Sizão Machado (piano) e Lanny Gordin (guitarra) – pra lá de sintonizados com as inventividades que Jards Macalé continua fazendo no palco.

O que chamou a atenção também foi o público, composto por muito e muitos jovens que nem sonhavam em nascer quando o artista, de fato, começou sua carreira. Foi no Festival Internacional da Canção (FIC), da Globo, em 1969. No evento, o cantor apresentou a música Gotham City, que compôs com José Carlos Capinam (outro parceiro de longa data), usando uma túnica e fazendo diversas performances no palco, inaugurando a estranheza e a incompreensão que o grande público passaria a ter sobre ele: “maldito”, provocador, inventivo, performático e inovador.

No show em São Paulo não houve roupas extravagantes e nada muito performático, mas Jards mostrou que continua se alimentando de seu estilo inventivo, de seus belos arranjos e músicas geniais. Ah, sabe os jovens que citei? Sabiam cantar de cor a maioria das canções. E fiquei lá, absorvido, e tentando decifrar a letra da canção Mal Secreto, que Jards fez com o poeta Waly Salomão (“Não choro/Meu segredo é que sou rapaz esforçado/Fico parado, calado, quieto/ Não corro, não choro, não converso/Mascaro meu medo, massacro minha dor/Já sei sofrer/Não preciso de gente que me oriente...”).

Veja trechos da entrevista com Jards Macalé

Uma de suas características profissionais são suas longas parcerias, inclusive de trabalho. Você foi dirigido pelo cineasta Glauber Rocha, e agora, pelo filho dele, Eryk Rocha, no documentário Jards. Fale um pouco dessa experiência de trabalhar com o pai, no passado e com o filho, no presente.

Teve uma época que os filhos dos meus amigos me convidaram para trabalhar, não só Eryk, como também trabalhei com os filhos de Leon Hirszman, com os filhos de Joaquim Pedro Andrade (ambos diretores de cinema). Eles vinham para mim já como se eu fosse, não o grande, mas uma pessoa que tinha uma experiência de vivência com os pais deles. Eles pegaram também a coisa da invenção, de correr risco, essa coisa toda. Enfim, tem toda essa trajetória até chegar ao documentário Jards, de Eryk Rocha.

Jards Macale no Festival Internacional da Canção, em 1969

Jards Macale no Festival Internacional da Canção, em 1969

Quero falar sobre o show Banquete dos Mendigos, que você fez na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, em 1974. Como nasceu essa ideia inventiva e como você conseguiu reunir uma trupe de artistas tão talentosos (Jorge Mautner, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Edu Lobo, Pedro dos Santos, Luiz Gonzaga Jr., Raul Seixas, Johnny Alf, Grupo Soma, Edson Machado, MPB-4, Luiz Melodia, Dominguinhos e Gal Costa)?

Nasceu meio por acaso. Eu já estava fora das gravadoras, tudo estava muito complicado, contas para pagar, sem perspectiva, essas coisas todas que passam por nossas carreiras. Lembro que brigava na época por causa dos direitos autorais. Tem um dado anedótico nessa história toda, porque a gente vivia fazendo os chamados shows em benefícios. Era show em benefício do cara que estava preso, o outro que estava passando por problemas de saúde, precisava de assistência médica e hospital bacana. Juntava todo mundo e fazia um show para socorrer o cara do apuro. Até que um dia pensei: “Vou fazer um show em meu autobenefício”. Brincadeiras à parte...

Uma brincadeira providencial, devido a sua situação financeira...

Claro (risos). Convidei o pessoal todo, os colegas. Quando fui procurar um lugar para fazer o show autobeneficente, estava passando em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, quando avistei o Cosme Alves Neto, diretor da Cinemateca do Museu, meu amigo. Parei para conversar com ele e, numa determinada hora, falei da minha ideia do show. Ele disse: “Rapaz, vai ter que ser agora, porque tem uma Mostra da ONU que vai comemorar o vigéssimo quinto aniversário da Declaração dos Direitos Humanos”. Ele me apresentou a Heloisa Lustosa, diretora do MAM e Antonio Moinho, que era diretor do Centro de Informações da ONU no Brasil. Decidiram que seria bacana juntar o show com esse evento da ONU. Agora, pense, fazer um show que comemorava os Direitos Humanosem plena época do Médici (Emílio Garrastazu Médici, presidente militar do Brasil entre 1969-1974), no auge da loucura e da tortura. E aí voltei para os meus amigos e disse: “Já que é para meu autobenefício, vamos comemorar essa data com a ONU”. Meus amigos toparam e a gente fez.

E como você conseguiu reunir uma turma tão boa e eclética?

Eles já estavam convidados para fazer o show em meu autobenefício e virou esse manifesto Banquete dos Mendigos. Foi um risco muito grande. Lembro que o pau comeu lá dentro, tinha provocações que podiam atrapalhar tudo. O próprio público expulsou quem tentou melar a coisa.

 

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