Saiba mais sobre a vida da primeira vice-prefeita negra da Bahia

 

Texto: Maurício Pestana | Foto:Luiz Couto| Adaptação Web Sara Loup

 

Vice-presidente Célia Sacramento | Foto: Luiz Couto

Vice-presidente Célia Sacramento | Foto: Luiz Couto

 

Ela mudou o rumo e pautou a discussão racial na cidade de Salvador. Ao aceitar ser vice-prefeita na chapa de ACM Neto do DEM, a professora Célia Sacramento encontrou obstáculos até dentro de casa, mas com fé, perseverança e um jeito diferente de fazer política, vem conquistando um novo espaço na política baiana e nacional. “Meu marido e meus irmãos eram contra. Mas eu tinha certeza que, independente de eu ganhar ou não, era a pauta negra que estaria no poder”, relembra.

Em entrevista exclusiva a  Raça Brasil a vice-prefeita conta como foi esse empreitada:

Raça Brasil: Conte um pouco sobre a sua atuação política.

Vice-presidente Célia Sacramento: Eu e meus três primeiros irmãos fomos alfabetizados em casa primeiramente por minha mãe, e, com quatro, cinco anos, eu já sabia ler e escrever. Quando chegamos à escola com sete anos, já líamos livrinhos, revista em quadrinhos e para não atrapalhar, já que eu ficava conversando muito em sala de aula, a professora sempre me dava ocupações. Era a líder da turma, distribuía os cadernos para os colegas e assim foi. Lembro que participei de um grêmio estudantil pela primeira vez na sétima série; mas a minha iniciação política está registrada em ata na Associação Nova Aliança, fundada pela minha mãe, no bairro de Praia Grande, subúrbio ferroviário de Salvador. Eu tinha 17 anos e queria ser presidente, então fiz parte da disputa eleitoral. Não ganhei, mas está lá na ataque a minha chapa foi uma das que concorreram.

RB: E na questão negra, como a senhora iniciou?

Célia: Entrei na faculdade na quarta vez que prestei o vestibular, com nota acima de nove, e tomei um susto quando cheguei lá. Olhei para um lado, olhei para o outro, e em todos os lugares não via os mais de 200 jovens negros que estavam no cursinho junto comigo. Na minha sala da universidade havia dois. Nos cursos de medicina, no ano em que ingressei, a turma não tinha um negro; no curso de engenharia entrou um, meu amigo Osmario, que queria cursar o concorrido Engenharia Sanitária. Nosso problema era que não conseguíamos uma brecha para ter o poder do conhecimento, que sabemos muito bem como é transformador. Resolvemos criar uma estrutura para fazer com que outros também entrassem na faculdade. Criamos uma cooperativa em que cada pessoa ajudava da forma como podia: com dinheiro ou conhecimento. Cada aluno que passava na faculdade tinha o dever de voltar e ensinar àqueles que ainda tentavam entrar no ensino superior, e assim criamos uma instituição de apoio a esses jovens.

RB: Como a senhora vê a atuação e o espaço das mulheres negras na política?

Célia: Não existe participação. Infelizmente ela é quase que inexpressiva. Temos no Rio de Janeiro a Benedita da Silva que já foi vereadora, governadora, ministra e senadora. No Acre, temos a Marina Silva. A gaúcha Luiza Bairros, que sempre esteve conosco e fez parte da minha formação, e atualmente é ministra. Mas é muito pouco, considerando os números. Imagina: eu estava em um encontro de prefeitos e prefeitas em Brasília e lá havia uma mesa com todas as ministras e a única negra era a Luiza. Você chega aqui em Salvador e olha para todos os espaços e não vai encontrar mulheres negras em postos de poder. No Brasil a mulher negra não tem espaço.

RB: Qual a dificuldade para essas mulheres estarem mais representadas na política partidária ou de estado?

Célia: O racismo, que é uma doença não discutida abertamente e que termina impossibilitando os espaços nas esferas de poder. Observe a música. Por mais que façamos, as cantoras negras não têm espaço; a mídia não dá. É o racismo que não deixa, nos impede. Não é falta de competência, é preconceito racial.

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