Veja a situação dos negros após o fim do regime racista na África do Sul

 

TEXTO: Amilton Pinheiro | Adaptação web: David Pereira

 

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A QUESTÃO HISTÓRICA DO APARTHEID

A Revolução sul-africana foi uma resposta a um governo de minoria. Esse governo, apoiado em um sistema de discriminação único e brutal, fundou, inicialmente, uma estrutura socioeconômica com seus alicerces assentados na raça. O controle exclusivo dos brancos sobre as riquezas da África do Sul caracterizou a longa história de desigualdade do país. Assim, o monopólio racial sobre todos os meios de produção essenciais se converteu na base do poder político da minoria branca. Desde as iniciativas de reconhecimento daregião pelos portugueses, passando pela colonização holandesa seguida da britânica, os povos sul-africanos estiveram atrelados aos interesses europeus. O regime do Apartheid, entretanto, superou o sistema de escravidão e servidão organizado pelos europeus desde a segunda metade do século 17 e o transformou em um sistema de discriminação e exploração.

A Revolução, nesse sentido, tem suas raízes nas condições históricas peculiares que caracterizaram a contradição classe ou raça. Se a essência desse regime de ‘separação racial’ pudesse ser traduzida apenas pelos bancos de praças separados, ou pelos campos de jogos reservados apenas para os brancos, as condições para destruí-lo seriam mais favoráveis. “Mas o Apartheid foi muito mais do que isso” – diz a pesquisadora Analúcia Danilevicz Pereira, autora do livro 'A revolução Sul-africana'. “O regime estabeleceu um sistema de opressão generalizada em relação à maioria negra, criou barreiras permanentes que impediram o acesso dos negros à propriedade, a profissões mais qualificadas, à habitação nos complexos urbanos, ao estudo nas universidades ‘abertas’, à vida cultural e intelectual, e a qualquer direito político. E o fez com base na força militar e policial.”

O QUE MUDOU, DE FATO APÓS O FIM DO APARTHEID

As negociações entre os líderes do CNA e do Partido Nacional, com vistas ao estabelecimento de um governo de maioria na África do Sul, só foram possíveis porque tanto o regime racista quanto os movimentos de libertação encontravam-se enfraquecidos com o final da Guerra Fria, em função das profundas transformações que afetaram osistema internacional. Ainda assim, ambos os lados utilizaram a força, mesmo que desigual, durante o período de negociações e depois de definidos os resultados do pacto. “Vale lembrar que os grupos de extremadireita continuaram promovendo atentados contra os negros e suas lideranças, bem como o aumento da criminalidade decorrente da grandeconcentração de população negra, pobre e desempregada, nas favelas que foram erguidas nos principais centros urbanos”, avisa Analúcia.

O governo democrático que assumiu o poder em 1994 teve que lidar com uma situação bastante complexa. Se por um lado herdou a mais desenvolvida das economias africanas,com uma moderna infraestrutura institucional e física, por outro, herdou também grandes problemas socioeconômicos, incluindo um alto nível de desemprego, índices alarmantes de pobreza, alta concentração de renda, epidemias, além de intensa violência.

A transição que levou o CNA ao poder produziu algum impacto sobre a situação social, mas os privilégios de uma minoria tiveram que ser respeitados. “Os revolucionários, que afirmavam não ser possível que a libertação ocorresse se não houvesse a redistribuição de riqueza a todo o povo, foram obrigados a aceitar a manutenção da estrutura socioeconômica do Apartheid”, conclui.

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