Nos últimos anos, tornou-se comum assistir a episódios de tragédia social e, quase imediatamente, vê-los traduzidos em números. Percentuais de aprovação, índices de confiança, gráficos coloridos e pesquisas rápidas surgem como se fossem capazes de dar sentido ao que é, antes de tudo, humano. Em situações que envolvem violência, mortes e violações de direitos, o dado aparece como um atestado de legitimidade, um selo racional que parece autorizar decisões difíceis e, muitas vezes, brutais. O luto vira estatística, a dor vira porcentagem e a vida se transforma em argumento matemático. Essa transformação da realidade em números não é apenas um modo de medir o mundo, mas um modo de interpretá-lo e, muitas vezes, de silenciá-lo.
Vivemos em uma época em que a informação é tratada como produto e o dado se converte em uma mercadoria que circula para convencer, disputar sentidos e sustentar decisões. Não é só uma questão de quem produz os números, mas de como eles chegam ao público, de como são recortados, exibidos, manipulados, simplificados e consumidos. A velocidade com que recebemos essas estatísticas impede a reflexão. Absorvemos os resultados como quem desliza mecanicamente o dedo na tela, sem dar tempo para a dúvida, sem permitir que a consciência elabore o que realmente está sendo apresentado. Com isso, aquilo que deveria servir para ampliar a compreensão passa a funcionar como anestesia moral. O dado cria a sensação de que tudo já está explicado e resolvido, dispensando o incômodo de pensar mais profundamente.
Há um deslocamento perigoso quando se enfoca a reação da população e não as causas estruturais que sustentam os problemas. A pesquisa passa a organizar o debate público, não apenas a retratá-lo. Em vez de promover questionamento, legitima respostas prontas. A opinião medida é usada como justificativa, o número passa a ser argumento final e o consenso aparente se sobrepõe à complexidade. Assim, a estatística deixa de ser instrumento de análise e se torna ferramenta de poder. Ela constrói narrativas, molda percepções e estabelece o que pode ou não ser dito.
Esse mecanismo não se restringe ao tema da violência. Ele aparece em debates ambientais, urbanos, econômicos e sociais. Projetos de privatização de espaços públicos, por exemplo, são frequentemente defendidos por meio de índices que prometem eficiência e melhor conservação, mas raramente os mesmos números destacam o aumento das desigualdades de acesso, a exclusão velada e a perda do caráter coletivo desses lugares. O dado apresenta apenas uma parte da realidade e, ao fazer isso, cria a ilusão de harmonia onde existe conflito. Mais uma vez, quem não entra na conta permanece invisível.
Diversos pensadores têm lembrado que o problema não é termos opinião, mas desconhecer o que sustenta nossas convicções. Em uma sociedade saturada de informação, confundimos excesso de dados com conhecimento, como se volume equivalesse a profundidade. As redes sociais reforçam esse comportamento ao transformar reações imediatas em verdades absolutas. Quando isso acontece, o dado deixa de dialogar com a experiência humana e passa a substituí-la. Em vez de estimular reflexão, serve muitas vezes como escudo contra a empatia.
Talvez o grande desafio do nosso tempo seja justamente reaprender a olhar o que os números não mostram. Por trás de cada gráfico existem histórias, contextos, desigualdades históricas, relações de poder e vidas que não cabem em tabelas. Dados são importantes e necessários, ajudam a formular políticas públicas, identificam problemas e orientam decisões, mas não podem ocupar o lugar da consciência ética e do olhar humano. Quando nos acostumamos a aceitar o dado como verdade absoluta, perdemos a capacidade de sentir, de questionar e de reconhecer a dor alheia.
Mais do que produzir estatísticas, precisamos preservar a sensibilidade para escutar aquilo que elas não alcançam. O dado pode apontar caminhos, mas é a humanidade que dá sentido às escolhas. Em um tempo que insiste em medir tudo, talvez o gesto mais urgente seja lembrar que nem tudo o que importa pode ser quantificado e que nenhuma sociedade é verdadeiramente justa quando aceita transformar vidas em números sem se responsabilizar pelo que esses números encobrem.







