Veja as histórias das escritoras negras brasileiras Maria Carolina de Jesus e Maria Firmina dos Reis

 

TEXTO: Uelinton Farias Alvez | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A escritora negra Maria Firmina dos Reis | FOTO: Divulgação

A escritora negra Maria Firmina dos Reis | FOTO: Divulgação

Uma nasceu na São Luís do Maranhão do século 19 e tinha origem em uma família escrava; a outra veio ao mundo em Sacramento, Minas Gerais, já no século 20, e passou à história como “negra, catadora e favelada”. Em ambos os casos, trata-se de Marias: Maria Firmina dos Reis (1825-1917) e Maria Carolina de Jesus (1914-77). O que une o destino dessas duas mulheres guerreiras e destemidas? A escrita, a literatura, os livros.

A primeira, era filha da negra Leonor Felipe dos Reis, aparentada do célebre gramático maranhense Sotero dos Reis. Transferiu-se para Guimarães (MA), onde iniciou seus estudos, até alcançar o magistério, por concurso, e o jornalismo, por determinação. A segunda, filha de negros humildes (a mãe era empregada doméstica), só teve dois anos de vida escolar regular, mesmo assim, patrocinada pela patroa de sua mãe. Deixou a escola para ajudar no sustento da família, pobre e desvalida. Seu aprendizado literário se deu pela escrituração nos velhos cadernos que encontrava nas latas de lixo da capital paulista, onde buscava os meios de criar seus filhos. Mas se Firmina dos Reis podia ser chamada de erudita e intelectual, professora e escritora no século da escravidão, a outra, Carolina de Jesus, semianalfabeta, desescolarizada, passou parte da sua vida como catadora de papel nas ruas de São Paulo para alimentar os três filhos de pais diferentes, na Favela do Canindé.

São dois rostos. Duas personalidades distintas. Mas semelhanças de origem e destinos marcam suas trajetórias. Ao publicar, em 1859, o romance Úrsula, de temática abolicionista, Firmina dos Reis tornava-se a primeira mulher a assinar uma narrativa de fôlego na literatura brasileira. O fato de ser negra, todavia, aumenta o seu pioneirismo e o seu pendor revolucionário. Mesmo depois de tantos anos, não há (salvo engano) uma brasileira que se iguale a ela.

Segundo Nei Lopes (Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, Selo Negro, p. 278), a sua erudição era tanta que fez cunhar a expressão “é uma Maria Firmina”, aplicada no Maranhão, a toda mulher inteligente e bem-informada. E o que dizer de Carolina de Jesus? É, talvez, um caso particular de fenômeno existencial que, à semelhança da autora maranhense, nasceu para brilhar e fazer a diferença no seu curto período de vida terrena.

Maria Carolina de Jesus | FOTO: Divulgação

Maria Carolina de Jesus | FOTO: Divulgação

Uma vez morando em São Paulo, gozando de sua plena obscuridade, Carolina de Jesus se viu do dia para a noite no centro de todas as atenções. É que pelas mãos do hábil jornalista Audálio Dantas, repórter do Diário de São Paulo, que fazia uma reportagem sobre playground próximo à favela do Canindé, onde é hoje o estádio da Portuguesa de Desportos na Marginal do Tietê, conheceu o mundo glamuroso das letras impressas. Audálio Dantas soube da existência de seus escritos e foi atrás deles. Resultado foi a publicação, em 1960, de Quarto de Despejo – diários de uma favelada, marco editorial da Francisco Alves, que vendeu, em uma semana, 10 mil exemplares, superando a marca do maior ícone da época, ninguém menos que Jorge Amado. Ou seja, a favelada falou!

Em pouco tempo, a editora ficou abarrotada de possíveis escritores, favelados e deserdados da sorte que, como ela, também tinham algo a dizer. Os escritos de Carolina de Jesus, antecipador do gênero “depoimento” e “testemunho”, viraram de pernas para o ar e escandalizaram os presumidos padrões da época, escancarando as portas de um ambiente desconhecido e curioso, o das habitações populares, como outrora fora exposto e revelado o das senzalas.

Pela natureza de suas vidas, Firmina e Carolina estão integradas pela via existencial. A primeira, embora racializada e atacada pela elite oligárquica maranhense, de profundas raízes até hoje, driblou o cativeiro, à sombra de Sotero dos Reis, de ideais abolicionistas e republicanos. Já a segunda, incorporada aos tempos da República, a única relação que teve com o magistério, foram os conflitos com a professora D. Lanita Salvina, aos 7 anos, que lhe dava reguadas nas pernas finas.

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