EUA/BRASIL – Reações diferentes para a violência racial

Zulu Araujomaio 31, 20207 min
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O que faz brasileiros e norte-americanos serem tão diferentes ao enfrentamento da violência racial? O assassinato de um garoto negro, (João Pedro) de 14 anos (fuzilado, pelas costas, dentro de casa, enquanto brincava com outras crianças, pela polícia carioca/Brasil), da mesma forma que outros milhares de jovens negros inocentes assassinados, pelo país afora, quase sempre pelo aparelho de segurança do Estado, no segundo maior pais negro do mundo (54% da população) ter uma resposta diferente à dos irmãos norte-americanos (13% da população), por que?

Qual o combustível que move a minoria negra norte-americana a se posicionar com tanta força e determinação, diante de fatos semelhantes, como o ocorrido com o irmão George Floyd, de 46 anos, (assassinado pela Polícia de Mineapólis, EUA, por asfixia, após nove minutos de tortura, em plena rua), e imobiliza a daqui onde um jovem negro morre a cada 23 minutos?

A princípio não deveria haver distinção nas reações se analisarmos o modus operandi: duas vidas, dois assassinatos, duas polícias e um só resultado: o racismo que mata e vilipendia não apenas a quem morre, mas, sobretudo a quem fica vivo.  A diferença abissal na reação dessas duas sociedades tem a ver com suas escolhas históricas de compromissos, acordos e rupturas com as instituições que as compõe, seja de estado, da sociedade civil e até militar.

Enquanto no Brasil optamos por um acordo com os “aliados” do racismo cordial de não agressão constitucional uma vez que “Todos somos iguais perante a lei” Os Estados Unidos até poucas décadas atrás viviam sobre as regras das leis do Apartheid, operando com um racismo visível e institucionalizado desde sempre naquele país, enquanto aqui optamos brancos e negros para o pacto do “me engana que eu gosto” Onde o negro finge que não é discriminado e o branco finge que não discrimina e os dois vivem um pacto macabro onde uma das partes tem sido dizimada, social, econômica e politicamente, consciente ou não.

Os pais e familiares de João Pedro choraram quase que sozinhos, a morte do ente querido, nos Estados Unidos, milhões de pessoas, das mais diversas regiões do país, estamentos sociais e dos mais distintos 8segmentos raciais, (brancos, pretos, latinos) reagiram de forma contundente, indo as ruas, protestando, chegando aos portões da Casa Branca e obrigando até mesmo o Presidente, Donald Trump, a se pronunciar, pedindo justiça para o caso.

Convenhamos, é muita diferença para uma mesma causa: o racismo que mata. E mata as vezes pelo mão do aparelho de estado, que é constitucionalmente criado para fazer exatamente o contrário – dar segurança e proteção a sua população, mata também quando discrimina no mercado de trabalho, mata quando não dá espaço político seja no estado ou nos partidos políticos independente das cores ideológicas, mas mata quase sempre de forma cordial, oficiado  pela anestesia paralisante do caldinho cultural do velho pacto do  “eu finjo que não discrimino e você finge que não é discriminado”.

E, esse silêncio ensurdecedor que esse país vem praticando para com os seus coloca a todos como cumplices desses assassinos em série, de crianças e jovens negros, notadamente os setores mais vinculados à defesa da democracia, da igualdade e da diversidade. Um silencio ensurdecedor que precisa ser urgentemente quebrado.

Já passou da hora de quebrarmos esse pacto, irmos às ruas, protestarmos e exigirmos aquilo que nos é devido desde que o primeiro africano colocou os pés acorrentado nessa terra, é preciso dar um basta nessa matança. Isto se quisermos construir um país minimamente decente e democrático.  Pois, fora daí, é a barbárie.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

 

*Com Maurício Pestana

 

**Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da RAÇA, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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