Saiba mais sobre a festa e a história de São Benedito, o santo africano

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTOS: Fabio Guinalz | Adaptação web: David Pereira

 

Saiba mais sobre a festa de São Benedito, o santo africano | FOTO: Fabio Guinalz

Saiba mais sobre a festa de São Benedito, o santo africano | FOTO: Fabio Guinalz

Quando a Irmandade de São Benedito foi fundada, em 1941, o bairro de Casa Verde, na zona norte de São Paulo, tinha ares de quilombo. Muitas famílias negras compraram terrenos no local, pois eram relativamente baratos. Elas se mudaram da região central da cidade, onde os aluguéis encareceram demais, inclusive dos porões ou chegaram do interior do Estado. Levaram consigo suas crenças religiosas, seus costumes e suas tradições. E foi na igreja de Nossa Senhora das Dores que vários devotos do santo siciliano de origem etíope – que os italianos chamavam de “mouro” – se uniram para criar sua entidade.

A festa do primeiro aniversário da organização contou com a presença de diversas irmandades mais antigas, tanto de São Benedito quanto de Nossa Senhora do Rosário, vindas de outros bairros, cidades e até do Rio de Janeiro. Lucinda de Oliveira Marcelino, moradora da Rua Galileia, hoje bisavó, tinha na época quatro anos. Ela se lembra: “Depois da missa, o café para os irmãos era servido numa serraria que as pessoas limpavam e enfeitavam. Para o almoço, minha mãe e outros fundadores os levavam para nossas casas. Em algumas das residências, como na nossa, também tinha samba. E isso virou uma tradição.”

Além de Dona Luzia, mãe de Lucinda, faziam parte dessa iniciativa Dona Augusta Nóbrega da Silva (mãe do atleta Adhemar Ferreira da Silva), Dona Edith Brochado, o Sr. Celino de Paula, sua primeira esposa, Dona Matilde, e vários outros. “Aqui em casa almoçava muita gente, inclusive a banda de música que tocava na missa e na procissão”, conta Lucinda, que recebeu sua fita da irmandade aos 8 anos. Depois da reza, as pessoas faziam seus pratos e iam comer no quintal. Com o tempo, o número cresceu muito e foram almoçar na calçada. “Nas últimas décadas, vem tanta gente que temos de interditar a rua”, diz. Com o fechamento do Cine Dom José, que funcionava ao lado da igreja, o café e o almoço passaram a ser servidos naquele prédio, transformado em salão paroquial. Mas algumas famílias continuaram recebendo visitantes para almoçar.

FESTA DE SÃO BENEDITO

A festa de São Benedito da Casa Verde acontece no segundo domingo do ano. A celebração, porém, começa na noite de quinta-feira, com reza do terço e missa. O mesmo acontece na sexta-feira e no sábado à noite. Às 7h da manhã de domingo há uma missa em memória dos irmãos falecidos e, às 10h, a missa solene.

 

Homens carregando a imagem de São Benedito, o santo africano | FOTO: Fabio Guinalz

Homens carregando a imagem de São Benedito, o santo africano | FOTO: Fabio Guinalz

HISTÓRIA DE SÃO BENEDITO, O SANTO AFRICANO

Desde o século 19, na Europa, a imagem de São Benedito tinha pele bem mais clara. Para a igreja católica italiana, um santo de origem africana – etíope – não era conveniente. Por isso, o chamavam de “santo mouro”, como se ele fosse árabe.

Sua devoção foi trazida ao Brasil pelos portugueses e, imediatamente, conquistou a população mais humilde, de maioria negra, que com ele se identificou. Filho de um casal de ex-escravos, Benedito nasceu livre na Sicília, em 1524, e foi educado nos princípios cristãos. Consta em seu processocanônico que, desde a infância, era humilde, trabalhador e preocupado com os mais pobres. Demitido da fazenda onde era feitor, acusado de roubar o patrão para dar de comer a pedintes e andarilhos, viu o fazendeiro quase falir com a morte dos rebanhos e pragas infestando sua plantação. Readmitido, os negóciosvoltaram a prosperar. Aos 21 anos, se uniu a um grupo de frades eremitas que viviam em extrema pobreza. O pouco conseguido com esmolas era dividido com pessoas que viviam na miséria. Devoto da Virgem Maria, Benedito passava horas rezando o rosário e ingressou, como irmão leigo franciscano, na Ordem dos Frades Menores Reformados, na região de Palermo. Trabalhava na cozinha do convento.

Um de seus primeiro milagres, ainda em vida, foi durante um inverno rigoroso, quando faltaram mantimentos na dispensa. Mandou o ajudante encher de água os grandes caldeirões e os pôs a ferver. Passou a noite orando. De manhã, no lugarda água havia peixes cozidos e arroz que alimentaram os frades. Dezenas de outros milagres constam nos documentos da Ordem, enviados ao Vaticano. Até casos de ressurreição, como de um bebê, morto por asfixia, num acidente. É essa a criança branca carregada em sua imagem.

Mesmo analfabeto, tornou-se administrador do convento, dando aulas aos noviços e palestrando a teólogos e mestres sobre dogmas da fé cristã. Dizem que até previu o horário da própria morte, na Páscoa de 1589, aos 65 anos, e que de seu corpo exalava perfume de flores.

Seu corpo embalsamado é mantido numa urna de cristal, que pode ser vista na Igreja de Santa Maria, em Palermo. Em seu louvor criaram-se centenas de irmandades. Mesmo as dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, que agregam negros epardos, costumam também ter devoção a esse santo. Hoje, a fé em São Benedito é uma marca da negritude e também da consciência negra de fiéis das mais variadas etnias.

 

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