Conheça a história do herói jamaicano que só foi reconhecido depois de sua morte

 

Texto: Oswaldo Faustino | Foto: Divulgação | Adaptação Web Sara Loup

Marcus Garvey | Foto: Divulgação

Marcus Garvey | Foto: Divulgação

Metodista, convertido ao catolicismo, Marcus Mosiah Garvey Jr. Foi um personagem que não passou a vida “em brancas nuvens”. Ao contrário, desde a adolescência, deu muito trabalho ao poder constituído, onde estivesse. Primeiro, em sua terra natal, a Jamaica, ainda dominada pela Inglaterra. Depois, no Harlem, no coração de New York. E por fim, pregando o Pan- Africanismo por todos os territórios onde o escravismo e a diáspora espalharam povos africanos.

Dos onze filhos de um pedreiro maçom apaixonado por livros, que vivia em St. Ann Bay, na Jamaica, nove morreram na infância. Marcus foi o décimo primeiro. Nascido em 1887, herdou do pai a paixão pelos livros e, ainda criança, já devorava tudo o que havia na extensa biblioteca da família. A leitura de autores libertários o levou, aos 14 anos, a liderar uma greve por melhores salários na gráfica em que trabalhava como aprendiz, pertencente a seu próprio tio. No mesmo ano, descobriu o racismo, num país em que o número de negros era dez vezes maior do que o de brancos. Ao fazer amizade com uma vizinha branca, a família da garota providenciou sua mudança para a Inglaterra e a proibiu de se corresponder com ele, por ser um nigger.

Peregrinação diaspórica

Garvey estava com 23 anos quando iniciou uma viagem para ver como viviam os negros nos diversos países latino-americanos no pós-abolição. Foi também a Londres e só retornou a seu país em 1914, para fundar a Associação Universal para o Progresso Negro, em inglês, Universal Negro Improvement Association, a UNIA. Aos 25, mudou a sede da UNIA para o Harlem, em NY. Ali, a associação começou a crescer e prosperar, graças a seu talento de orador em estimular os afro americanos a se orgulharem de suas origens e em pregar a importância do retorno à terra de seus ancestrais, a África.

Cinco anos depois, em 1920, a entidade já apresentava mais de 1.100 filiais em cerca de 40 países. Para a logística operacional dessa volta à África, ele fundou a Black Star Line. Visionário, entendeu que não bastava aos negros mudarem-se para o Continente Africano sem um incentivo à independência econômica. Para isso, criou a Negro Factories Corporation. Em vão, Marcus Garvey tentou convencer o governo da Libéria, país da África ocidental, criado em 1816 a receber ex-escravizados dos EUA na condição de colonos e doar terras aos retornados, com apoio da UNIA.

Perseguição, denúncias e prisões

As ideias de Marcus Garvey eram uma pedra no sapato dos governantes e poderosos de vários países, principalmente o Pan-africanismo, uma ideologia que defende a potencialização da voz negra tanto na África quanto na diáspora, através da criação de um único organismo de união. Com base nesse pensamento surgiu, há 50 anos, a Organização de Unidade Africana, atualmente denominada União Africana. Se, nos detalhes, Garvey divergia do afro americano W. E. B. Du Bois,o que os levou a grandes debates e graves acusações mútuas, hoje, a paternidade dessa ideologia é compartilhada por ambos.

Durante todo o século XX, o primeiro presidente da República de Gana, Kwame Nkrumah, e o brasileiro Abdias do Nascimento se fizeram porta vozes do pan-africanismo no campo político e na academia. Atualmente, essas ideias são defendidas mundo afora pelo Dr.Julius Garvey, filho de Marcus, que recentemente esteve no Brasil. Acusado de fraude ligada à venda de ações na Linha Black Star, que havia falido, Marcus Garvey foi preso em1922. Atualmente, não há dúvidas de que, independente dos problemas de gestão, houve um bem engendrado complô para comprometê-lo e deportá-lo à Jamaica.

Ele morreu em Londres, em 1940, cinco anos depois de ter se mudado para a cidade. A pressão do Movimento Rastafári levou o governo de seu país natal a reconhecer Marcus Garvey como o primeiro herói da Jamaica e a repatriar seus restos mortais em 1964.

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