Iza: Dona de si e sem filtro, em entrevista para a RAÇA

Por Flávia Cirino

IZA se consagra como maior fenômeno negro dos últimos tempos na música pop nacional

Na última quinta (18), Iza lançou o single “SEM FILTRO” e hoje se prepara para o lançamento do clipe da canção que deve ir ao ar por volta do 12h. Com looks provocantes e todo seu talento vocal, a cantora brilha na carreira e ainda integra o time de jurados do The Voice Brasil. Na entrevista concedida com exclusividade à RAÇA, a diva pop brasileira falou sobre sua história e os desafios da carreira.

“Sempre dou o meu jeitinho. É bruto, mas é com carinho. Porque Deus me fez assim, dona de mim…”. Quando canta os versos de “Dona de Mim”, hit que  figura entre as mais executadas desde que foi lançado, em abril do ano passado, como carro chefe de seu disco de estreia, IZA parece protagonizar um papo direto com o interlocutor. E é assim que essa carioca de 28 anos, formada em Publicidade e Propaganda, trata a todos que a cercam. Sem rodeios, determinada em não tornar sua ascensão em algo passageiro. 

Nascida em Olaria, bairro simples do subúrbio carioca, ela se mudou para Natal, no Rio Grande do Norte, aos seis anos de idade. Foi lá que teve o primeiro contato com a música, no coral de uma igreja ainda na infância. Aos 14 anos, começou a fazer pequenos shows em retiros e paróquias da região. Aos poucos, passou a se apresentar em outros eventos, mas sem considerar que a música poderia se tornar sua profissão. De volta ao Rio aos dezoito anos, ingressou no curso de Publicidade e Propaganda, e se formou na concorrida PUC-Rio, onde iniciou a carreira profissional como estagiária de edição da TV PUC-Rio. Depois, trabalhou em diferentes agências de publicidade. Nas horas vagas, incentivada por amigos e familiares, investia na veia musical por meio de um canal no YouTube, no qual publicava covers de outros artistas. Foi ali que, em 2016, foi descoberta por olheiros da gravadora Warner Music. 

Com uma agenda típica de superstar – daquelas em que o sono acontece esporadicamente e as folgas são comemoradas como um triunfo – ela não abre mão de sua privacidade. Principalmente após o casamento, realizado no final do ano passado, com o produtor musical Sérgio Santos, a quem conheceu, claro, durante o trabalho. 

Conheça mais sobre essa incrível cantora, chamada pelos fãs de Imperatriz, e que se orgulha em ser exemplo para crianças negras. Algo que não teve na infância. Negra, de origem humilde, dona de si… com vocês, Isabela Cristina Corrêa de Lima.

RAÇA: São 28 anos de idade, três de promissora carreira, num progressivo sucesso que muitos não conquistaram. Como se sente? 

IZA: Pode parecer pouco tempo de estrada. Mas são 28 anos de luta para chegar até aqui. Eu trabalhava com outra coisa antes. A gente acaba se formando ao longo da vida inteira. Se hoje eu estou aqui e as coisas estão acontecendo dessa forma, é porque eu batalhei 28 anos. Vocês que me conhecem há apenas três. É uma luta diária, desde sempre, para conquistar o meu lugar e me tornar a pessoa que sou. 

RAÇA: Mas, há três anos você ainda estava voltada para a Publicidade, como profissão, ou já vislumbrava o que vive hoje, consagrada como cantora e despontando como apresentadora? 

IZA: Não me imaginava! Quando eu era criança, brincava de apresentar. Nunca levei isso a sério e jamais pensei que um dia pudesse ser minha profissão. Mas descobri que é uma coisa que eu amo fazer. E fico mais feliz ainda por conseguir alinhar com a música. Eu nunca pensei que as pessoas fossem querer me ver na TV, falando. RAÇA: Em que momento você decidiu se jogar na música? 

IZA: Eu tinha muito medo de conviver com a dúvida do que eu gostaria de ser. Não me sentia completa trabalhando com publicidade e resolvi seguir o que eu gostava de fazer. Comecei a stalkear as pessoas que trabalhavam na Warner Music, minha atual gravadora, e mandar os meus vídeos de cover. Um desses vídeos chegou ao presidente, que gostou e me chamou para conversar. Saí dali com um contrato em mãos, mas sem saber o que aquilo significava de verdade. 

RAÇA: Você já gravou com Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, vai cantar no Rock’n Rio com a Alcione… De quem você é fã?

IZA: Toda hora é um susto! Finjo costume… Dividir o palco com Alcione é um sonho! É muito mais do que pedi pra Deus, estou me sentindo lisonjeada. Eu sou muito tímida na posição de fã, até porque sei como é a rotina do artista. Fico muito preocupada em não ser invasiva, de  ficar em cima. Saí correndo do Caetano na primeira vez que encontrei com ele. RAÇA: Uma negra apresentando dois programas musicais, um na TV aberta e outro na fechada. Tem aquele momento de “consegui!”?

lZA: Essa é a segunda temporada que faço o “Música Boa Ao Vivo”, no Multishow”, que acabou indo ao ar simultaneamente ao “Só Toca Top”, na Globo. Se eu não tivesse ido bem na primeira temporada, eu não teria sido chamada de novo. Talvez, eles tivessem mudado a apresentadora. Voltei muitíssima segura. 

RAÇA: Você assiste seus vídeos do YouTube? Gosta de se ver em cena? 

IZA: Eu sou virginiana. E odeio me assistir. De tão crítica que eu sou eu prefiro não ver, acho que nada  fica bom o suficiente. Mas os vídeos do YouTube eu vejo sim, é bom perceber o quanto a gente evolui, vai ficando mais confiante. Acho legal, lembro tudo o que sentia e vejo que estou vivendo tudo aquilo que eu queria. É uma forma de voar com os pés no chão.

RAÇA: Como você lida com a representatividade? 

IZA: É muito importante que a gente se veja em todos os lugares e que entendamos que podemos estar aonde a gente quiser estar. Que a gente veja que todos os caminhos são possíveis e que todas as portas estão abertas. Isso é importante para que se cresça com confiança, para que se corra atrás dos sonhos. Pode parecer besteira, mas não é. Fico muito feliz de estar vivendo esse momento e saber que pessoas podem se espelhar em mim. 

RAÇA: Seus clipes exaltam a negritude. Exigência sua? 

IZA: “Pesadão” e “Ginga” foram dois trabalhos muito focados na representatividade. Todos os dançarinos são negros. “Pesadão” teve ainda a peculiaridade de ter sido gravado no Viaduto de Madureira, reduto da black music no Subúrbio do Rio de Janeiro. Quis que as pessoas de lá se reconhecessem. 

RAÇA: No “Só Toca Top”, você e Toni Garrido são dois cantores negros, de origem humilde, comandando um programa na maior emissora do país. Uma conquista, derrubada de barreira ou caminho natural? 

IZA: Acho que é um pouco de cada. Estou sempre mudando os meus objetivos e me renovando, tentando fazer o meu melhor. E, realmente, fazendo o meu melhor. Esse novo passo faz parte de um crescimento meu. Ao mesmo tempo em que é inegável que a gente precisa reconhecer que ter dois cantores negros assumindo um programa de TV é algo realmente novo. Não temos como negar o impacto disso na vida da gente e na vida de outras pessoas.

RAÇA: Existe um “peso a mais” por serem dois cantores negros na função de apresentadores, muito mais do que somente se colocarem como dois artistas na referida função? 

IZA: Não sei se existe um peso a mais ou se colocam um peso a mais. O que eu sei é que eu não subo no palco com peso nenhum nas minhas costas. Também não aceito peso que ninguém queira colocar nos meus ombros. Eu me preocupo realmente em ser o melhor que eu puder ser e pensar em deixar minha família orgulhosa, meus fãs orgulhosos. 

RAÇA: Recentemente viralizou um vídeo no qual você chora diante de duas crianças negras, dizendo que você é referência para muita gente. Mudou seu pensamento a partir dali? 

IZA: Fiquei e fico muito emocionada. Sempre me perguntam como me sinto sendo uma representante para essas meninas. Mas nunca uma menina negra havia me perguntado isso. E eu estava lá, toda eloquente, perguntando “para meninas negras como eu e minha irmã”. Fiquei muito abalada com isso, eu me vi nelas. Sei que faria muita diferença se eu me visse em todos os lugares. É importante sim que você chegue ao hospital e seja atendido por um médico negro pra que você, criança, enxergue que você pode estar lá também. Quando você não vê similaridade nas pessoas, seja lá qual for o cargo que ocupem, você inconscientemente cria um bloqueio, não sabe se você pode estar ali ou não. Principalmente vivendo no sistema que a gente vive. Sei o quanto foi complicado pra mim e sei que talvez seja menos complicado para elas, porque cada vez mais nós estamos aqui. 

RAÇA: Você casou em dezembro, após dois anos de relacionamento com o produtor musical Sergio Santos. Como está essa nova “rotina”? 

IZA: Agora está melhor porque moramos na mesma casa. Antes era uma correria, ele ia a outros estados onde eu estava, era uma logística cansativa.

Agora eu volto pra casa e ele está lá e vice-versa. O casamento é uma surpresa pra mim e eu não poderia estar mais feliz. Eu gosto muito de organizar as minhas coisas. Na correria do dia a dia, acabam guardando as minhas coisas e é algo que eu gosto de fazer. Desarrumar a minha mala, guardar as minhas coisas, só que infelizmente eu não tenho tempo. Isso é um detalhe, né? Lembro que tinha uma paz de espírito fazendo isso e agora não dá mais porque está uma correria. Eu gosto muito de organizar a casa, de varrer a casa. Não vou dizer que eu ame, mas gosto de fazer faxina! O lance é que não tenho tempo. Cozinho também, mas cadê o tempo? Eu sempre faço alguma coisa, eu cozinho muita comida brasileira. 

RAÇA: Apesar dessa verdadeira maratona, você tem todo um cuidado especial com a forma física… 

IZA: A minha vida é eternamente estar fazendo esporte e me alimentando bem, eu me descobri atleta. Acho que muitas pessoas não enxergam dessa forma, mas quem trabalha com música pop, correndo de um lado pro outro, a gente tem que manter pelo menos uma qualidade. Como é muito cansativo, a estrada pede muito, exige muito de você e se seu corpo não está preparado pra isso, realmente não dá. Ou cai doente, ou se machuca, não consegue fazer shows, perde a voz, e tudo isso está muito atrelado à alimentação também. Eu continuo comendo a minha pizza, o meu hambúrguer, mas é de vez em quando, não é todo dia. Procuro alinhar corpo e mente. Procuro estar com minha família sempre que posso. Não sou de ficar com o telefone na mão, senão a gente enlouquece. 

RAÇA: Qual a principal mudança da Isabela para a IZA? 

IZA: Acho que estou mais maliciosa. Antes eu era a pessoa que sentava do lado e começava a puxar assunto, falava da minha vida. Isso é algo que temos que tomar cuidado. Não acho que todas as pessoas têm más intenções, muito pelo contrário. Acredito e tenho muita fé no amor, confio nas pessoas. Mas é legal você tomar conta da sua vida e guardar informações que você não precisa passar para os outros. A partir do momento em que você é pública, tem que abrir a porta, tem que dar satisfação porque você estabeleceu uma conexão… mas eu procuro realmente ir somente até onde eu sei que dou conta. É uma relação muito intensa eu preciso estar bem para seguir minha vida. 

RAÇA: O racismo ainda te afeta?

IZA: Já sofri muito preconceito e sei que ainda há muito racismo. Temos pouquíssimas referências negras na televisão. Antes de ser reconhecida, sentia que não podia estar ali e que não era o meu lugar por não ver pessoas como eu ocupando aquelas cadeiras. Agora, sinto que represento as pessoas e trago um monte de gente comigo. Embora hoje eu seja capa de revista, sei que o racismo continua.

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