Jaime Figura, o homem da máscara de ferro

Conheça a história de Jaime Figura, artista plástico baiano que anda pelas ruas vestindo uma armadura de metal enferrujado

 

TEXTO: André Rezende e Marla Rodrigues | Adaptação web: David Pereira

Jaime Figura, o homem da máscara de ferro

Jaime Figura, o homem da máscara de ferro

Os moradores de Salvador já o conhecem bem (pelo menos a sua ‘estranha’ aparência). Os turistas de passagem pela cidade reagem à sua presença com admiração e curiosidade. Mas não existe uma só pessoa na capital baiana que não tenha ao menos ouvido falar de Jaime Figura, de 60 anos. Artista plástico, ele cria pinturas e esculturas. A primeira obra fez em seu próprio corpo, uma mutação que o tornou folclórico. Começou com pedaços de couro esfarrapado e, por cima, foi colocando alumínio e pedaços de ferro velho até chegar à cabeça, onde criou uma máscara com os mesmos materiais, uma espécie de gaiola com espaço aberto apenas para a boca e para os olhos.

Quem o vê por inteiro andando pela cidade (geralmente empurrando um carrinho onde coloca seus apetrechos e coisas que cata pelas ruas e que lhe serão úteis para uma nova obra de arte ou para a sua própria vestimenta) tem a impressão de estar diante de algo que não é desse mundo. A princípio a imagem de Jaime assusta, depois, gera curiosidade e, por fim, muitas e muitas especulações sobre quem é, de fato, aquele homem de armadura de metal enferrujado.

Seu verdadeiro nome é Jaime Andrade de Almeida, nascido no bairro Alto do Peru, na periferia de Salvador, filho de Estefânia e Arlindo e o mais novo entre os oito irmãos. Na primeira fase da infância levou uma vida farta, fruto do trabalho do pai, maquinista na Marinha Mercante. “Ele passava todo o tempo viajando. Como morávamos no Alto do Peru, dava pra ver os navios lá em baixo e eu ficava só olhando e esperando a chegada de papai. Quando ele voltava trazia aquelas caixas cheias de noz moscada, castanha do Pará, queijo cuia, vinhos, só coisas gostosas e importadas. Naquela época a nossa vida era uma maravilha, não faltava alimentação”, relembra Jaime. Mas um dia o destino mudou a vida da família. Em uma de suas viagens, Arlindo foi atropelado no Rio de Janeiro. Ele era diabético e, na época, não quiseramaposentá-lo, mesmo estando em serviço. Encostado pelo INSS, o pai de Jaime ainda ficou um longo tempo no hospital. Quando recebeu a indenização da Marinha, entregou a confortável casa em que morava com a família de aluguel e comprou seu próprio imóvel. “Era um lugar maligno chamado Cutuvelo, próximo ao Alto do Peru. Mas só tinha mato, miséria e cachaceiros. Naquele tempo não existia esse negócio de droga, não, era cachaça mesmo! As pessoas de lá eram atrasadas, sem estudo. Comecei a fazer carrinhos no fundo do quintal, montava ventiladores, ficava inventando coisas que ninguém fazia, coisas diferentes com peças quebradas que acabavam sendo roubadas pelos filhos dos vizinhos. Eles tomavam tudo o que eu criava e ainda me jogavam pedras, me humilhavam.” A mãe até chegou a levar o menino Jaime ao médico para “fazer exame da cabeça e saber se eu tinha algum problema”, conta.

Quem o vê por inteiro andando pela cidade tem a impressão de estar diante de algo que não é desse mundo

Quem o vê por inteiro andando pela cidade tem a impressão de estar diante de algo que não é desse mundo

A INVEJA QUE ANIQUILA

O baiano cresceu e, na adolescência, arrumou emprego em uma gráfica com um conhecido de seus pais. Começou varrendo o local e, ao mesmo tempo, observando como se fazia a chapa de letras, os logotipos. “Um dia pedi ao dono para deixar eu fazer o meu nome e fiz um cartão: Jaime Almeida Andrade – Chapista, com meu endereço embaixo. O cara viu, gostou e começou e me passar outros trabalhos. E tome cartão!”, fala o artista plástico, aos risos. E ele não parou mais…Com o tempo, recebeu convite para trabalhar em uma gráfica maior. Lá fazia chapa, logotipo e cartazes com letreiros enormes. “Ficava desenhando com os dedos sujos, trabalhava com caneta Nankin”

Jaime foi evoluindo como profissional de gráfica e também como pessoa. Andava todo arrumado, com boas roupas, relógios, bolsas e tudo aquilo que podia (e queria) comprar com o fruto de seu trabalho.

Os vizinhos de Cutuvelo, porém, também cresceram e, à medida que Jaime se mostrava cada vez mais feliz (jovem, bonito e saudável, fazia grande sucesso com as mulheres), a inveja dos outros aumentou. “Aqueles pobres diabos, pobres de espíritos ficavam me observando quando eu saía de casa. Ia para as festas e, quando retornava, lá estavam eles. Me batiam, me chutavam e tomavam tudo que era meu. Me perseguiam porque eu era diferente, não me misturava com eles. Eu andava empolgado, alegre com o meu próprio crescimento, que veio com a minha sabedoria. Tudo que eu fazia virava ouro e despertou a cobiça”, explica Jaime.Tal perseguição ainda traria profundas consequências na vida do nosso artista…

E foi levando a vida assim! Trabalhou na mesma gráfica por mais ou menos cinco anos, quando recebeu uma nova proposta de trabalho, com promessa de um salário maior e a oportunidade de trabalhar com o renomado artista plástico José Araripe Jr. “Aceitei e aprendi muito com ele, que me apadrinhou no meu trânsito pelas universidades. Eu só cursei até a metade do segundo grau e com ele transitei pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e outras. Frequentava vernissage e aprendia tudo que ele me ensinava. Mas não conseguir me segurar, fui ingrato e tentado por uma oferta melhor de salário. Não resisti e acabei virando as costas para Araripe, fui para um novo emprego”, relembra.

"Comecei a rasgar minhas roupas, andava rasgado com a bolsa na mão e com todos os meus trabalhos dentro”

“Comecei a rasgar minhas roupas, andava rasgado com a bolsa na mão e com todos os meus trabalhos dentro”

“MOSTRO A MINHA ARTE, MAS NÃO PRECISO MOSTRAR O MEU ROSTO”

Mas aí veio o plano Collor de Mello e… Bem, aquela altura Jaime tinha seu próprio carro e só andava com roupas e sapatos de grifes, além de desfrutar da companhia de muitas mulheres. “Mas o Collor quebrou todo mundo, né?”, questiona. “A gráfica em que comecei a trabalhar começou a despencar. Fui demitido e já estava, a essa altura, com uma mulher grávida.” (Nesse momento, Jaime fica cabisbaixo e diz, com ênfase, que não gostaria de falar sobre essa parte de sua família e continua…). “Acabei não suportando aquela pressão novamente na minha vida. Comecei a rasgar minhas roupas, andava rasgado com a bolsa na mão e com todos os meus trabalhos dentro” E aquelas mesmas pessoas que o perseguiam em seu bairro continuaram a violentá-lo fisicamente: jogavam laranja podre em cima dele, o revistavam e diziam: “Ele ficou louco! Era bom desenhista, mas ficou louco!”.

“Coloquei a máscara porque não suportava mais olhar para a cara deles, passava e eles olhavam para mim, rindo da minha cara. Me entreguei totalmente à morte, uma parte de mim morreu”, explica.

A VIDA NO CINEMA

Jaime passa o dia inteiro andando pelas ruas de Salvador, principalmente pelo centro histórico. Se sente cansado, se diz doente, se queixa de muitas dores no joelho e passa algumas necessidades. Busca atualmente se aposentar, assim, teria condições mínimas de sobrevivência. Também tentar viabilizar a mudança de sua família para um lugar mais tranquilo e digno (mulher e filho moram em Sussuarana, bairro violento de Salvador). Quer viver em paz ao lado deles, além de divulgar sua música (ele tem uma banda de punk rock), suas pinturas, suas esculturas e abrir um ateliê para comercializar sua arte. Por enquanto, vive em um espaço reduzido no Pelourinho, um pequeno quarto onde está construindo um sarcófago e onde está também o caixão no qual ele dorme e sonha com dias melhores.

Famoso, Jaime já foi tema de várias matérias na imprensa, inclusive no Fantástico. E sua história chegou aos cinemas pelas mãos do diretor Daniel Lisboa, que ficou alguns anos acompanhando o artista plástico para concluir o documentário O Sarcófago, sucesso por todos os lugares onde foi exibido. E loucura não é a palavra mais apropriada para definir as reações de Jaime Figura e sua transformação. Conversando com ele, é possível perceber que tudo não passou de uma defesa e, por meio dela, nasceu um artista performático, que tem em seu corpo a sua mais expressiva arte. A armadura e a máscara de ferro traduzem a mensagem desse artista plástico baiano. Com elas, Jaime passa o seu protesto, a sua revolta e ainda faz o povo refletir sobre a importância que damos à aparência física, à uma estética inventada e absorvida por todos, mas que na prática não mostra a verdadeira essência e o valor de uma pessoa.

Quer ver essa e outras matérias da revista? Compre essa edição número 167.

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