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Jerônimo Rodrigues: A cor e a cara da educação na Bahia

Graduado em engenharia agronômica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1991, com especialização em desenvolvimento territorial sustentável, pela universidade Federal De Campina Grande (UFCG), o baiano Jerônimo Rodrigues também é mestre em Ciências Agrárias pela UFBA. Atuou no movimento de Organização Comunitária (MOC), de 1995 a 2006. Foi membro do conselho curador da Fapesb e do fundo de combate à pobreza da Bahia, do conselho de segurança alimentar e nutricional baiano, foi Secretário Executivo Adjunto Do Ministério Do Desenvolvimento Agrário (2011) e secretário nacional do desenvolvimento territorial/ SDT/ MDA, entre 2011 e 2012. E este ano assumiu o seu grande desafio: comandar a pasta mais estratégica e de maior orçamento do estado da Bahia, a Educação. Nessa entrevista exclusiva à revista RAÇA, o Secretário conta um pouco do que é o desafio de comandar a educação no estado mais negro do Brasil.

Secretário, como o senhor vê a representatividade negra nas escolas baianas?
Nós temos uma missão na história educação brasileira, que é a nossa origem e, ao longo das história tornar a escola um espaço de debate. Décadas atrás, isso era muito tímido por conta do regime militar, mas hoje, por conta da nossa democracia e os acessos tecnológicos você pode sentir nas escolas uma expressão muito grande de questões, que antes estava fora do debate interno, como questões relacionadas ao sexismo, homofobia e racismo. Hoje esses debates fazem parte do dia a dia das escolas e, no caso da Bahia onde mais de 90% dos alunos são negros, essa representatividade e discussão fazem parte do cotidiano dos nossos alunos.

E como senhor vê a família participando deste debate?
A família ainda não tem a total compreensão do papel e espaço da escola na formação do aluno e até dela mesmo; a escola ainda é vista como no tempo de nossos pais e avós que diziam: você tem que estudar para não ser como a gente, ou seja, um conceito limitado da educação. A educação não é só isso. Com certeza nós entendemos que a escola não pode ser vista como um castigo ou como uma fuga.

Estar no estado mais negro do Brasil traz características diferenciadas entre escola pública e privada?
Nossa rede tem 835 mil estudantes, 90% são de negros e 53% mulheres, isso na rede pública. Na rede particular é justamente o contrário, a maioria dos alunos não é constituída de negros. Não temos nada contra isso, até porque parto do princípio que é nosso dever como secretário de educação da Bahia trabalhar com todas as instâncias de educação do estado, nossa rede estadual, os municípios e a particular também. Mas também é nosso papel é garantir que esses alunos da rede pública tenham também um alto nível de qualidade na educação.

Ter 835 mil estudantes na rede estadual, 90% deles se declarando negros, é um percentual gigantesco. É um árduo desafio na política de educação e igualdade racial?
Sim e te digo mais, o UNICEF esteve aqui conosco e desse tamanho gigantesco da rede, de 835 mil da Bahia, ainda temos 220 mil estudantes em idade escolar da rede municipal, infantil e também em idade de frequentar a rede estadual, fora da escola. Então, veja, a gente sempre coloca o foco, a lupa em quem esta dentro da rede. Esses precisam ser sim olhados e colocados à disposição do melhor da educação; os que estão de fora da escola, também precisam ser olhados. Eu não tenho o estudo para saber qual o percentual da cor desses excluídos, mas não tenho dúvidas que também são negros.

Como mudar este panorama?
Temos um compromisso pessoal do governador da Bahia, Rui Costa, em viabilizar uma aprendizagem voltada à cidadania, mundo do trabalho, cuidados com o patrimônio público e envolvimento da comunidade escolar. Visamos a uma educação integral, onde os estudantes possam contar com profissionais qualificados e estrutura física e pedagógica com qualidade; em linhas gerais, esta é um dos nortes de nossas ações.

Quais ações podem auxiliar e incentivar esses estudantes a combater evasão escolar?
Este é outro problema que enfrentamos no Brasil. O que falei anteriormente faz com que o ambiente escolar se torne mais atrativo para o estudante. Lançamos recentemente o projeto “Mais Estudo”, cujo objetivo é o fortalecimento das aprendizagens em Língua Portuguesa e Matemática nas escolas da rede estadual de ensino. Com esta ação, estudantes com bom desempenho escolar, com notas iguais ou superiores a 8, serão selecionados para auxiliar os colegas que tenham dificuldade de aprendizagem. Os monitores receberão uma bolsa mensal de R$ 200, por três meses, e terão o acompanhamento de professores supervisores e dos coordenadores pedagógicos. A previsão é que sejam investidos recursos na ordem de R$ 4,5 milhões em bolsas. Além de fortalecer as aprendizagens dos estudantes, o “Mais Estudo” também visa despertar no aluno monitor o desejo pela prática docente por meio de atividades de natureza pedagógica e contribuir com práticas inovadoras de ensino e de aprendizagem, considerando a fluidez do diálogo e a aproximação existente entre os estudantes.

Desemprego e violência são grandes problemas da população negra da Bahia e do Brasil. Como a Educação pode auxiliar?
A educação tem sim um papel essencial, a médio e a longo prazo, na equação desses graves problemas, pois somente com educação é que podemos preparar melhor o cidadão para o trabalho e para vida, tornando-o menos vulnerável à pressão da violência e do racismo, mas é preciso agir de forma rápida e também a curto prazo diante do gravíssimo momento em que vivemos, sobretudo no aspecto do desemprego. E aí tem uma ação que já colocamos em prática aqui na secretaria que ajuda na equação desse problema, o programa Primeiro Emprego em que oferecemos vagas com carteira assinada nas secretarias e órgãos do Poder Executivo para egressos do ensino médio profissionalizante da rede estadual de ensino e temos também outro programa que oportuniza universitários comprovadamente de baixa renda para estagiar também dentro da estrutura governamental. Por fim, o Mais Futuro garante bolsas de até R$ 600 para que estudantes das quatro universidades estaduais (Uneb, Uefs, Uesb e Uesc) consigam concluir seus estudos.

Entrevista completa: https://revistaraca.com.br/assinatura/

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Jornalista, publicitário, cartunista e escritor. Exerceu o cargo de Secretário de Promoção da Igualdade Racial da Cidade de São Paulo de abril de 2013 a dezembro de 2016. Atualmente é Diretor executivo da Revista Raça.