Lélia Gonzales deixou o glamour dos bem-nascidos e levou a cultura africana para os livros

 

Texto: Oswaldo Faustino | Foto: Acervo Agência o Globo | Adaptação Web Sara Loup

Lélia Gonzales | Foto: Acervo Agência o Globo

Lélia Gonzales | Foto: Acervo Agência o Globo

Muito cedo, a antropóloga, educadora e feminista mineira, Lélia Gonzales aprendeu que, na luta dos movimentos sociais, também existem castas e hierarquias. Por isso, questões específicas como as das mulheres negras, eram subestimadas em favor do chamado “interesse maior”. Assim como ocorria nas fotografias da liderança do Movimento Feminista, com as militantes negras, suas reivindicações também eram mantidas na segunda ou na terceira fila.

A fidelidade às causas que abraçou em especial a do feminismo e das relações raciais, foi a principal marca dessa ativista que, em 19 de julho de 1994, aos 59 anos, se transformou em ancestral. Mineira, nascida Lélia Almeida, em Belo Horizonte, ainda criança, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde foram viver na favela do Morro do Pinto, no Santo Cristo, junto ao Leblon.

Ser retirado de suas antigas moradias, mesmo que precárias, e empurrados para locais menos valorizados, é sina da população negra nos grandes centros urbanos. Das áreas centrais, consideradas nobres, para os morros e, desses, para as periferias e subúrbios, como a Baixada Fluminense. Com a família Almeida não foi diferente: do Morro do Pinto direto para o subúrbio de Ricardo de Albuquerque, loteamento das antigas terras do Engenho Nossa Senhora de Nazaré.

Muito tempo depois, na obra Lugar de Negro, que lançou em 1982, com Carlos Hasenbalg, pela editora Marco Zero, Lélia escreveu: “O lugar natural do grupo branco dominante são moradias amplas, espaçosas, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas, etc., até a polícia formalmente constituída.

Desde a casa grande e do sobrado, aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente:da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos habitacionais, cujos modelos são os guetos dos países desenvolvidos dos dias de hoje.

O critério também tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço.”As constatações de opressão e exclusão de seu povo não fizeram dela uma pessoa amarga. Ao contrário. Com seu riso franco, aberto e fácil, buscava o colorido de nossa cultura, o que a levou a escrever Festas Populares no Brasil, lançado pela Editora Index,em 1987, e premiado na Feira Internacional do Livro, de Leipzig, Alemanha, entre as obras que compõem “os mais belos livros do mundo”.

Enquanto alguns de nossos intelectuais se afastam do povo para vivenciar o glamour e a badalação dos “bem-nascidos”e do universo acadêmico, como uma verdadeira griô, fiel à tradição da oralidade africana, Lélia compartilhava com seu povo histórias que valorizavam nossas origens e produção cultural.

Por meio da publicação de suas palestras e de debates dos quais participou, foi se cunhando o termo amefricanidade, que se baseia nas experiências diaspóricas, ou seja, a dos descendentes de africanos não só no Brasil, mas em todas as Américas. Ao Ler Lélia Gonzales, se tem a certeza de que as diferenças culturais de nossa gente, do lado de cá do Atlântico, são minúsculas, diante de tudo o que temos em comum.

Quer ver essa e outras reportagens da revista? Compre essa edição 176

Comentários

Comentários