Medalhista olímpica Janeth fala com exclusividade para a Raça

RAÇA trás Janeth com exclusividade para nossos leitores!

No abertura das Olimpíadas do Japão a RAÇA trás para vocês uma entrevista exclusiva com uma das maiores jogadores de basquete da história do Brasil. A craque de ouro Janeth! Família, Carreira e Diversidade entre outros temas foram abordados nesta entrevista imperdível. Confira

Raça: Janeth você fez parte da geração de ouro do basquete brasileiro, fale um pouco de sua carreira e como foi chegar lá?

Janeth: Sou muito feliz por ter feito parte de uma geração do basquete brasileiro com tantas conquistas. Não foram conquistas fáceis, a trajetória para chegarmos até elas foi bem difícil, tivemos que treinar e batalhar muito. As dificuldades começaram desde cedo. Saí de casa aos 13 anos para jogar em Catanduva. Abri mão de muitas coisas, de aniversários, fins de semana, mas tudo o que eu fiz valeu a pena. Foi tudo muito intenso, tudo feito com muito carinho, com muita dedicação. Fico honrada por ter feito parte dessa geração que conquistou vários títulos para o Brasil e que manteve o país entre as quatro melhores seleções do mundo. 

Raça: Embora sejamos 56% da população deste país e nos Estados Unidos são 13% ,  na sua opinião por que tem mais negros atuando neste esporte lá do que aqui?

Janeth: Isso não é só questão de oportunidades, mas também de como o esporte é gerenciado e aplicado, e em quais locais. Não só o esporte, mas também o estudo, a saúde. Vivemos em um país com poucas oportunidades e precisamos estar preparados, sobretudo nós, pretos, para as poucas que aparecem. Não senti essa dificuldade nos Estados Unidos, mas acho que tive essa oportunidade não só pelo basquete que eu vinha jogando, mas também por ter sido a única sul-americana a participar da primeira geração da WNBA. 

Raça: Como foi participar daquele grupo fantástico de jogadoras da seleção brasileira? 

Fazer parte dessa geração que conquistou tantos títulos foi incrível. Foi um mix de gerações, que reuniu a experiência de meninas como Paula e Hortência, com a juventude da geração dos anos 90. Deu resultado. Quando trabalhamos em grupo, abrindo mão da vaidade, conseguimos bons resultados. Foi isso o que aconteceu. A seleção brasileira foi muito feliz quando essa geração conseguiu se reunir. Hoje, infelizmente, sentimos falta disso, mas acredito que logo estaremos de volta ao cenário internacional, conquistando bons resultado. É o que a gente espera, é o que a gente almeja.

Raça: E a experiência na maior liga de basquetebol do mundo. Que lições você tirou daquele período de sua vida? 

Eu tive várias lições durante minha experiência na maior liga de basquetebol do mundo, a WNBA. O ano 2000 foi muito promissor pra mim. Foi um ano de muita dedicação, de muita entrega, um ano em que eu percebi realmente o quanto eu tinha evoluído como atleta.Foi um ano de desafios: não joguei na posição 3, na qual eu jogava normalmente, e mesmo assim conseguimos bons resultados. Jogando como titular na armação, eu consegui comandar a equipe e conquistamos o quarto título consecutivo da WNBA, com meninas extraordinárias como Cynthia Cooper, Tina Thompson e Sheryl Swoopes. Tiro muitas lições daquele período. Estava sozinha em outro país, tendo que mostrar porque estava lá, tendo que matar um leão por dia para permanecer entre os melhores. Foram oito temporadas assim. Não é fácil. Tem momentos em que a gente se sente triste, sozinha, mas sempre buscando dar a volta por cima. Colocava em mente o que queria, o propósito de estar ali, o quanto amava o que fazia. Respostas positivas a essas perguntas me fortaleciam para que eu pudesse dar a volta por cima, me concentrar e continuar batalhando. Aprendi a equilibrar o lado racional com o emocional. Costumo dizer que, para mim, o basquetebol nos Estados Unidos foi 50% emocional e 50% racional.  

Raça: Comparando Brasil e Estados Unidos, onde o Atleta tem mais dificuldade para ser inserido neste esporte? 

Não dá para comparar Brasil com Estados Unidos. Quando falamos em termos de atletas e dificuldades, fica ainda mais difícil. Porque lá o esporte é inserido na escola. A pessoa entra em uma modalidade e, se não se adaptar, tem outras opções. Tem a chance de se adaptar a uma modalidade esportiva que gosta mais. Apesar da competitividade, as dificuldades são bem diferentes das que temos aqui. Esse incentivo do esporte na escola pode ajudar a conseguir bolsa ao chegar na faculdade. Temos isso aqui também. No meu Instituto, tem vários atletas que usaram o esporte para conseguir se formar. Isso também é bacana, mas não é feito da mesma forma que nos Estados Unidos 

Raça: Você já sofreu preconceito por ser negra? Se sim, como se saiu? 

É comum sofrer esse tipo de preconceito, ao entrar em uma loja, por exemplo. Se estivermos usando uma roupa mais simples, as pessoas ficam te olhando e não te dão a mesma atenção. Aconteceu comigo principalmente antes de eu ser conhecida. De certa forma, eu procuro ignorar. Se eu vou a algum lugar e gosto do produto, eu compro. Se não gosto, simplesmente saio, vou embora. Nos Estados Unidos, na verdade, eu não sofri preconceito por ser preta.  Sofri preconceito por ser latina, sul-americana. Por estar no país do basquetebol e ocupar o lugar de uma norte-americana. Mas eu consegui driblar isso e conquistar o respeito deles.

Raça: Fale um pouco desse novo desafio de ser comentarista numa das maiores emissoras  de TV do mundo? 

Esse desafio de ser comentarista na TV Globo e no SporTV é um reconhecimento. Não só do que eu fiz pelo esporte, mas um sinal de diversidade. As pessoas estão realmente percebendo isso. É uma oportunidade, uma porta que se abre. Eu aceitei e vou agarrar com unhas e dentes, da melhor forma possível. Estou estudando sobre os Jogos de Tóquio e espero corresponder às expectativas da melhor maneira. Uma expectativa que também é minha, sobre o que sou capaz de entregar, o que me comprometi a fazer. 

Raça: A revista RAÇA este ano completa 25 anos que recado você  deixaria para meninas e hoje mulheres que acompanha sua carreira há mais de duas décadas? 

Parabéns para a Revista Raça pelos 25 anos. Parabéns para todos vocês pelo trabalho, pela dedicação. Às mulheres e meninas que acompanham a publicação, eu digo: nunca desistam dos seus sonhos. Tem que batalhar, correr atrás para que eles se realizem. Se por acaso se sentirem sozinhas, se sentirem com baixa auto-estima, se seus resultados não estão acontecendo, pergunte para si mesmo o que realmente você quer e tenha a resposta no fundo do coração. Tenho certeza que quando a resposta for verdadeira, você vai se sentir mais empoderada para ir atrás dos seus sonhos. 

Raça: Estamos vivendo um momento triste do Brasil e do mundo, como você espera que seja o novo normal? 

Realmente vivemos um momento muito triste, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Espero que no “novo normal” as pessoas tenham mais carinho, mais respeito, que sejam mais amigas,  mais verdadeiras. A pandemia mostrou que o ser humano é muito frágil e que ele precisa das outras pessoas. 

Raça: Janeth por Janeth? 

Eu sou uma pessoa simples, alegre, que gosta de atender, de falar com as pessoas. Uma pessoa amiga e companheira, que gosta principalmente de ajudar as pessoas.

Comentários

Comentários

About Author /

jornalista CEO e presidente do Conselho editorial da revista RAÇA Brasil, analista das áreas de Diversidade e inclusão do jornal da CNN e colunista da revista IstoÉ Dinheiro

Start typing and press Enter to search