No livro "Ritos de passagem" de Fábio Kabral, o autor apresenta mitos africanos a partir de uma história emocionante

 

TEXTO: Redação | FOTOS: Divulgação | Adaptação: David Pereira

Capa do Livro "Ritos de passagem", de Fábio Kabral | FOTO: Divulgação

Capa do Livro "Ritos de passagem", de Fábio Kabral | FOTO: Divulgação

O complexo mundo da literatura fantástica é um campo que ganha cada vez mais adeptos, principalmente com a popularização desses livros a partir de suas adaptações para cinema e televisão. Foi assim com “O Senhor dos Anéis” e, mais recentemente, com a coletânea das “Crônicas do Gelo e do Fogo”. Mas se tem algo que toda o gênero tem em comum é a constante apresentação de cenários e contextos europeus. Na contramão dessa tendência, chega às livrarias “Ritos de Passagem”, primeiro livro de Fábio Kabral.

Com a promessa de trazer como pano de fundo a mitologia africana sem se tornar didático ou estereotipado, Fábio Kabral decide ambientar uma história repleta de mistérios em uma região pouco explorada em literatura e cinema, hoje conhecida como Angola, com povos que a habitaram como personagens. O livro conta as diferenças de quatro jovens com personalidades problemáticas que acabam se encontrando em uma fase desafiadora da vida.

“É um livro sobre escolhas, sobre exclusão. Tem violência, estupro, homossexualidade, enfim, é um livro sobre passar para a vida adulta”, conta Fábio. E em meio às normas de conduta e expectativas criadas em torno dessa idade, o meio em que vivem se torna decisivo no que se refere a manter as tradições expressas nas antigas lendas da África e na descoberta de si mesmos.

Sobre os personagens, o autor é sincero em sua descrição, principalmente quando se trata de revelar o lado humano de cada um deles. Numumba é um garoto fraco, que apanha todos os dias da maioria dos personagens, mas sonha em se tornar um grande herói. Seu melhor amigo é Nolom, estudioso das antigas tradições que almeja se tornar um grande sábio, embora esteja ciente da sua condição de escravo e do meio em que vive, imerso em miséria e guerras.

 "Eu percebi que não sabia nada da África", diz o autor Fábio Kabral | FOTO: Divulgação


"Eu percebi que não sabia nada da África", diz o autor Fábio Kabral | FOTO: Divulgação

Gulungo é um grande guerreiro, mas também sofre por ser escravo, ignora a origem selvagem de seu sangue e pretende se vingar dos responsáveis pela destruição da sua tribo. Ele é apaixonado por Kinemara, a quarta e última personagem da trama – e a única mulher -, retratada como princesa de uma linhagem de feiticeiras. Ela sofre silenciosamente com maus tratos por ser considerada mais fraca que suas voluntariosas irmãs.

Neste novo contexto trazido por “Ritos de Passagem”, o continente africano não é apenas uma terra hostil, de fome e miséria, como sempre é retratada à exaustão em reportagens e documentários. A partir de uma pesquisa ampla, Fábio explora a riqueza mitológica da região, deixando de lado a ideia tribal e caricata que alguns poucos meios de comunicação transmitem em relação ao continente. “É a África que a gente não vê em filmes, não vê nos bonecos ou nos jogos, nem nas histórias. Não é a África estereotipada, tribal”, afirmou.

O autor é um personagem à parte, a começar pela aparência e tatuagens, com as suas dez máscaras africanas pelo corpo. É natural do Rio de Janeiro, formou-se ator na Casa das Artes de Laranjeiras e em seguida começou a estudar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, Fábio reside em São Paulo, onde cursa Letras na Universidade de São Paulo (USP). Ele acumulou trabalhos como ator e dublador e em agências de mídias sociais e relações públicas. “Na faculdade, eu percebi que não sabia nada sobre a África”, diz. Hoje, o autor entende que a África está situada na periferia do imaginário da humanidade, e segue pesquisando sobre o continente para futuras obras.

Ritos de Passagem” é uma ficção que poderia ser real, pois resgata e traz ao público as histórias de um local que, embora pouco dócil, é dotado de uma exuberante aura mística e povoado por lendas passadas de geração a geração durante séculos.

 

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