O bloco afro Ilê Aiyê quebra a ideia que diz não existir negros no sul do país

 

Texto: Elli Antonelli | Foto: Elli Antonelli | Adaptação Web Sara Loup

Negros do sul | Foto: Elli Antonelli

Negros do sul | Foto: Elli Antonelli

Cai a tarde em Salvador e, no bairro da Liberdade, numa conversa descontraída, nascia o tema do carnaval do Ilê Aiyê, o bloco afro mais tradicional da Bahia: Negros do sul. Lá também tem? Antonio Carlos dos Santos “Vovô”, presidente do Ilê, diz que a ideia inicial era falar de um tema ligado diretamente à África. “Foi numa conversa com um amigo, Fabio Goes, que surgiu uma proposta sobre negro de Londrina, e foi aí que pensei que poderíamos estender e mostrar os negros da região Sul”, conta.

O tema traz a interrogação (“Lá também tem?”) de propósito. “A ideia é quebrar a falsa discussão que no sul não há negros, existem até quilombos, e as pessoas desconhecem. A mídia não fala e as informações que chegam é que negro no sul é visita e dá para contar nos dedos. Mas há negros! Eles têm história e deram sua contribuição na construção dos Estados.

A expectativa é que a ação do Ilê produza também outro efeito, além do reconhecimento de que há negros no sul, como o próprio reconhecimento de pessoas negras que desconhecem a importância de sua história e cultura. Vovô espera que esta ação tenha um efeito também sobre os jovens, que resgatem o orgulho de ser negro e assumam sua negritude.

Após uma agenda entre a ministra Luiza Bairros, da SEPPIR, e o segmento do carnaval, a Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e Estado do RS convidou o Ilê para ir ao sul do país. Uma comissão foi formada para acompanhar o trabalho. A visita durou dez dias e passou pelas cidades de Pelotas, Rio Grande, Santana do Livramento, Santa Maria e Porto Alegre (no Rio Grande do Sul); Itajaí e Florianópolis (em Santa Catarina);e Curitiba e Londrina (no Paraná). Segundo o produtor cultural Otávio Pereira, “o objetivo foi articular apoio institucional e fomento de projetos com as autoridades locais e conversar com representantes das organizações sociais negras.

”O design Raimundo Santos, conhecido como Mundão, fotografou inúmeras referências da presença negra nos Estados. No Paraná, por exemplo, chamou a atenção a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, no mesmo local funcionava a igreja dos escravos que foi, inclusive, construída por eles por volta de 1737. As várias imagens coletadas farão parte da estamparia do bloco e estarão nos carros, nas roupas, nos camarotes e em todo material alusivo ao evento.

Para o jornalista brasiliense Michel Aleixo e Silva, o trabalho do Ilê Aiye, com ênfase no sul, produzirá um efeito interessante de divulgação, mostrando ao resto do país a importância da população negra.

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