Nu com a mão no bolso

Zulu Araujoabril 20, 20207 min
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Não poderia existir metáfora mais adequada para traduzir a grave situação do Brasil que o ditado popular que dá título a este artigo. O diversionismo estabelecido por setores da sociedade brasileira em um falso dilema – isolamento horizontal/isolamento vertical ou economia versus saúde, esconde em verdade um drama muito mais profundo que o país padece e que sua elite dirigente tenta esconder a todo custo.

Numa velocidade estonteante a pandemia do Coronavirus pôs a nu toda a farsa da pujança da nossa economia e deixou à mostra a dura realidade em que vive a maioria do povo: sem emprego, sem dinheiro, sem assistência social, sem saúde e sem futuro.

O chamado confinamento vertical para idosos, é nada mais nada menos que a Lei do Sexagenário rediviva, (Lei n.º 3.270, promulgada em 28 de setembro de 1885, garantindo liberdade aos escravos com 60 anos ou mais, com o pagamento de indenização. A indenização deveria ser paga pelo liberto, sendo obrigado a prestar serviços ao seu ex-senhor por mais três anos ou até completar 65 anos de idade). Parece brincadeira, mas não é. Nessa equação, vidas humanas não importam, ainda mais se forem de velhos, negros e pobres. Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência.

Em verdade, a pandemia expôs as vísceras do pensamento genocida e eugênico de parte da elite do país. Além disso, a pandemia está revelando, que apesar da precariedade do sistema público de saúde, a salvação da lavoura, está sendo o SUS, tão demonizado pelos empresários dos planos de saúde e que era alvo de um desmonte sem precedentes.

Do mesmo modo, a precariedade da informalidade no campo do trabalho, cantada em prosa e verso como “empreendedorismo” está deixando à mostra o seu lado mais cruel. São milhões de pessoas que ganham dinheiro agora para comer daqui a pouco, não tendo o direito sequer de cuidar da sua saúde. O desespero das pessoas na busca do auxilio emergencial, escancarados nas câmeras de tvs são sinais dolorosos dessa vulnerabilidade.

Enquanto isso o Banco Central anuncia um conjunto de medidas que deve disponibilizar para os bancos (setor mais lucrativo do país) algo em torno de  1 trilhão e 216 bilhões de reais  (dez vezes mais o apoio dado em 2008, quando da crise econômica), correspondendo a 16,7% do Produto Interno Brasileiro e para os 70 milhões de informais, 60 bilhões de reais, representando não mais do que 1% do PIB nacional, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado da República. É assim que se manifesta a desigualdade no Brasil.

Não fosse a forte pressão do Poder Legislativo e do Judiciário, juntamente com Governadores e Prefeitos sobre o Executivo Federal, e nem essa migalha de 600 reais o povão teria direito, pois a tese no Executivo é de que pouco importa quantos morram, pois a economia não pode parar.

E por mais que nos incomode, a pandemia também está revelando a dimensão política da pobreza. Aproximadamente um terço da população tem apoiado as teses genocidas. A ignorância e desinformação, tem sido presa fácil dos obscurantistas de plantão. E nesse território de carências o povo tem sido facilmente manipulado, sendo terreno fértil para o florescimento do fascismo. Não por acaso a pregação aberta do racismo, da intolerância religiosa, da homofobia e da volta da ditadura tem obtido tanto apoio.  E as grandes vitimas dessa perversidade histórica são e serão os pretos e pobres da sociedade brasileira.

O momento é grave e não podemos vacilar. Temos que juntar as forças democráticas de todos os campos, (político, empresarial, religioso, cultural, popular, etc.), em especial o movimento negro e enfrentarmos o obscurantismo que nos ameaça, em todos em todos os espaços, pois para nós, além de combater o vírus, precisamos garantir a democracia, que ela é oxigênio vital para uma sociedade saudável.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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