Confira a entrevista da Raça Brasil com o ator Antônio Pitanga

 

TEXTO: Sandro Almada | FOTOS: Eraldo Platz | Adaptação web: David Pereira

Entrevista com Antônio Pitanga | FOTO: Eraldo Platz

Entrevista com Antônio Pitanga | FOTO: Eraldo Platz

A história do cinema nacional e da luta de uma geração de artistas negros pela inserção de sua memória, história e identidade nos movimentos artístico-culturais do país, se confunde com a história do personagem de nossa matéria. Aos 72 anos, Antônio Pitanga exibe um currículo excepcionalmente rico. São cerca de 80 filmes, uma carreira como parlamentar, a felicidade de ver os filhos Camila Pitanga e Rocco herdarem o talento e o compromisso com a arte. E, sobretudo, muitas histórias vividas fora e dentro dos sets de filmagem que mostram a força, a coragem e a paixão com que um artista se dedica a lutar, obstinadamente, para afirmar – pela via da cultura – o valor e a beleza de ser negro!

Confira trechos da entrevista com o ator Antônio Pitanga

Com uma infância pobre, você teve que trabalhar cedo? Como foi apresentado à dramaturgia?

Nasci no Pelourinho. Ainda bem pequeno, fui para o colégio interno, que ficava em Águas de Meninos, em Salvador. Era muito levado, mesmo! Capitães de Areia (título de um livro de Jorge Amado) se refere a meninos assim. Sou alfaiate, sapateiro, linotipista, impressor, porque aprendi tudo isto neste colégio. Por isso, também sei passar, costurar etc. Depois fui trabalhar numa empresa de telégrafos inglesa, porque recebia uniforme e uma bicicleta. Fui criado no Largo 2 de Julho e via atores no Clube Fantoches. Foi quando comecei a namorar esta possibilidade. Um dia fui fazer teste para Bahia de Todos os Santos, um filme de Trigueirinho Neto, de 1960. E fui aprovado!

De lá pra cá, você construiu uma carreira brilhante.

Foram cerca de 80 filmes. Uma amiga, noutro dia, me ligou e disse: "Pitanga, estou assistindo um filme com Sarita Montiel em que você trabalha". Era Copacabana e eu nem me lembrava mais dele. Foi uma produção francesa em que eu fazia um mecânico e havia também um galã francês. Me lembrei também de um filme alemão, Estado de amor.

Por falar em galãs, você sempre foi considerado um homem muito bonito. O título também lhe cabe?

Não! (diz, enfático!). Não entrei na carreira pela porta dos galãs. Cheguei através de um movimento dentro do cinema brasileiro: o resgate, através do Cinema Novo, da cultura nacional, e que visava, também, nos descolar da colonização realizada pela cultura norte-americana. Vim daí. Um dos primeiros sucessos internacionais do Cinema Novo foi termos ganhado a Palma de Ouro na categoria de melhor fi lme internacional, no Festival de Cannes, em 1962, comO pagador de Promessas, do Anselmo Duarte, do qual participei. Nesta época, tinha o Grande Otelo fazendo as chanchadas com Oscarito, e o Milton Gonçalves começando no Teatro de Arena, em São Paulo. E eu, iniciando no cinema, em 1960.

 

“Não se podia colocar a profissão de ator e atriz na carteira de trabalho. Vivíamos um momento de luta pela transformação da realidade, da sociedade brasileira” | FOTO: Eraldo Platz

“Não se podia colocar a profissão de ator e atriz na carteira de trabalho. Vivíamos um momento de luta pela transformação da realidade, da sociedade brasileira” | FOTO: Eraldo Platz

Este resgate da realidade e cultura brasileiras proposto pelo Cinema Novo, incluía, então, a cultura e a realidade do negro?

Barravento (1963), de Glauber Rocha, era uma saga negra. Quando Cacá me chamou para fazer Ganga Zumba, eu já vinha desta experiência. Era outro tipo de representação do negro, numa época em que não apenas os negros eram malvistos, mas, na qual, ser artista era considerado quase como prostituição. Não sepodia colocar a profissão de ator e atriz na carteira de trabalho. Vivíamos um momento de luta pela transformação da realidade, da sociedade brasileira. Fui um jovem linkado com estas lutas, em que a cultura tinha um papel determinante. E valeu a pena ter participado de todo este processo.

Com a cultura e arte correndo nas veias, quando e por que optou pela vida parlamentar?

Trabalhei na TV Tupi, Record, Excelsior. Fui um dos fundadores da Globo, mas não me aposentei como funcionário de nenhuma destas emissoras. Trabalhei no Teatro Oficina, no Teatro de Arena e, quando veio a Era Collor, com ela foi anunciado o fim da cultura. O teatro e o cinema estavam sendo sufocados e euprecisava de uma tribuna. Fui à luta!

O que considera que mudou em relação à presença negra na ficção da TV brasileira contemporânea?

Eu acho que nós não conquistamos nada! Trocamos seis por meia dúzia! No passado, havia os que lutaram por um espaço: Aroldo de Oliveira, Zózimo, Zezé Motta, eu, entre outros. Agora tem Camila, Lázaro, Taís, Roberta Rodrigues. Quando a gente aparece na televisão, raramente se vê também a formação de uma família negra. Em 1968, fiz Vidas em Conflito, com Zózimo Bulbul, Leila Diniz, Jacira Sampaio e nesta novela do Teixeira Filho, havia uma família de afrodescendentes. Mas até hoje é raro ver o que assistimos em Insensato Coração: aquela família com a Camila, o Lázaro.

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