Desde a década de 1970, militantes afro-brasileiros acostumaram-se a colocar nomes africanos em seus filhos. Geralmente são nomes usados pelas várias etnias do continente, mas alguns têm a função de exaltar grandes momentos da história africana. Oswaldo Faustino, em sua coluna, conta a história de alguns desses nomes

 

TEXTO: Oswaldo Faustino |  FOTOS: Menelik II e Taitu Batel | Adaptação web: David Pereira

Menelik II à esquerda e Taitu Batel à direita

Menelik II à esquerda e Taitu Batel à direita

Para registrar nossos filhos com nomes africanos, minha mulher Ana e eu nos valemos de uma cópia de um exemplar em inglês, trazido da África, naquela época, pelo casal Ivair e Neusa Poli. Depois disso, porém, a editora Quilombhoje publicou um “livreto”, Nomes Afros e Seus Significados, sem autoria (fora de catálogo), que tem auxiliado muitas pessoas nessa missão. Há um nome que não consta em nenhum compêndio, mas que deveria servir de referência para quem deseja exaltar as glórias do povo negro: Adowa, ou Adwa. Esse é o nome da batalha que, em 1º de março de 1896, infligiu a maior derrota a uma força militar europeia, por parte de um exército africano, desde os tempos em que os cartagineses de Aníbal venceram a Roma dos Césares. A Batalha de Adowa garantiu no final do século 19 a soberania da Etiópia, expulsando os exércitos italianos, que tentavam invadi-la o tempo todo.

Nunca é demais lembrar que após a Conferência de Berlim, ocorrida entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, o Continente Africano foi repartido entre potências europeias. A Etiópia foi o único país da África a se manter livre do jugo colonial. Pagou caro pela ousadia de assegurar sua soberania, tendo que enfrentar várias tentativas de invasão. O que a Itália não sabia é que, desde os tempos bíblicos, os etíopes (“caras queimadas”, nome dado pelos gregos a todos negros africanos) venceram centenas de tentativas de invasão até mesmo de seus conterrâneos egípcios e sudaneses. Ingleses, indianos, árabes e muitos outros amargaram derrotas, mesmo contando com apoio de mercenários europeus e americanos. Liderados pelo Negus, nome dado a seus imperadores, e pelos Ras, governantes regionais, os etíopes jamais esmoreceram.

Na última década do século 19, o RasMenelik de Shoa foi aclamado Negus, adotando o nome de Menelik II (o primeiro era filho de Mekeda, a rainha de Sabá, com o Rei Salomão) e liderou o enfrentamento aos invasores. O ouro, a prata e o almíscar produzidos no país financiaram a compra do que havia de mais moderno em armamento de guerra. Mas não bastariam as armas, sem um grande estrategista e foi assim que Menelik II tornou-se conhecido mundialmente. Além das guerras, a Etiópia resistiu à miséria e às doenças provocadas pelos bloqueios internacionais, que não venceram a altivez e a soberania do povo etíope. Menelik II nunca negou que sua grande energia não vinha apenas da mente brilhante, mas do coração fortalecido pelo amor a Taitu Batel, a imperatriz fundadora de Adis Abeba, a capital do país. Uma guerreira, sempre ao lado do marido e à frente de seu povo, era a voz enérgica quando o Negus preferia a voz da brandura. Está aí um nome africano feminino tão forte quanto o da batalha de Odowa: Taitu Batel.

 

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