O curso da história

Há pouco tempo nem mesmo o mais preparado dos seres humanos poderia prever que entraríamos em uma era de tantas incertezas, provocadas por uma pandemia. 

O Brasil e o mundo vivem uma crise do ponto de vista social,econômico, político e sanitário de proporções incalculáveis. Na esteira deste problema outras crises não sanadas como racismo, desigualdade social e o desemprego nos empurrampara um lugar em que provavelmente negros e negras só tenham provado algo parecido em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, quando fomos jogados à própria sorte.

Este lugar de ex-escravizados, excluídos por um sistema perverso que fortalece as desigualdades, nos faz refletir se realmente existe uma saída para o caos. É neste momento que o encontro com nossa história e ancestralidade se faz necessário para termos a firmeza e a certeza de que tudo vai passar.

Somos descendentes de um povo que foi colocado às mais terríveis provas e sobreviveu ao encarceramento, comércio humano, ao transporte desumano da África, e neste trajeto é preciso lembrar que, de cada dez pessoas sequestradas no continente africano, menos da metade sobrevivia à viagem, ou seja, somos sangue desses sobreviventes.

Sobrevivemos a 380 anos num dos sistemas mais brutais e perverso pelo qual passou a humanidade – a escravidão negra. 

Sobrevivemos a todo o século 20, sub judice da exclusão, do racismo, da discriminação, em um país que mesmo racista sempre negou esse lugar, e só agora no século 21, mais de cem anos após a abolição da escravatura começou a adotar políticas compensatórias.

Se sobrevivemos a tudo isso, não será uma pandemia que irá nos vencer. A RAÇA tem se solidarizado a todas as causas vinculadas a soluções e reflexões antirracistas e muito nos entristece ter, quase toda semana, que usar nossos canais digitais para anunciar perdas irreparáveis pela Covid-19. Sabemos que por conta do racismo estrutural somos as principais vítimas deste vírus, e os menos vacinados. 

Mas nada irá interromper nossa marcha triunfal, que levará nossos filhos e netos a um país melhor. Se esta década de 20 ficará marcada como a década que espalhou o vírus e matou milhões de pessoas no Brasil e no mundo, também lembraremos que neste período entramos para a história como os anos em que mais entraram negros nas universidades, onde uma mulher negra foi a primeira cientista a decodificar o vírus de forma mais rápida no planeta.

Período também onde muitas empresas entraram pra valer na luta antirracista, e que elegemos as primeiras mulheres negras transexuais a ocupar os cargos de vereadora em São Paulo, Erika Hilton e Erica Malunguinho, primeira deputada estadual trans na assembleia legislativa do mais poderoso estado da nação.

Podem parecer poucas as conquistas, porém, quando olhamos para trás, percebemos o quanto avançamos e que não será nenhuma pandemia ou desgoverno que ceifará nosso curso e lugar na história.

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jornalista CEO e presidente do Conselho editorial da revista RAÇA Brasil, analista das áreas de Diversidade e inclusão do jornal da CNN e colunista da revista IstoÉ Dinheiro

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