Leia o discurso que Nelson Mandela fez na Assembleia Paulista durante visita ao Brasil no ano de 1991

 

TEXTO: Celso Fontana | FOTO: Acervo Assembleia Paulista | Adaptação web: David Pereira

O discurso de Nelson Mandela no Brasil | FOTO: Acervo Assembleia Paulista

O discurso de Nelson Mandela no Brasil | FOTO: Acervo Assembleia Paulista

O discurso de Mandela demonstrou elegância, humildade, gratidão, convicção, motivação, honestidade de propósitos, consciência da oportunidade e a necessidade da vitória “não amanhã, mas hoje!”. Dos valores listados por Mandela na carta à esposa, em 1975, na prisão, ainda há outros três: sinceridade,simplicidade e generosidade. A compatibilidade do que escreveu com o seu comportamento pode ser sintetizada como coerência. Nelson Mandela é o homem mais importante do século XX. Soube manter a esperança e o equilíbrio mesmo nas masmorras. foi um estadista libertador, ou ainda mais, um estrategista da paz. Abaixo segue o discurso daquele 2 de agosto, feito após o presidente da Assembleia, Carlos Apolinário, oferecer-lhe a palavra:

O discurso de Nelson Mandela na Assembleia Paulista:

“Senhoras e senhores, essa é uma indicação da profundidade do apoio que o povo de São Paulo tem dado à nossa causa, à nossa luta. A Assembleia Legislativa é a mais alta autoridade legal no país, e a concessão à posição simbólica de presidente desse órgão é, sem dúvida, uma fonte de força para o povo que luta na África do Sul. Agradeço muito ao presidente pela honra que me concede. É algo único, que nunca me foi concedido nos 40 países que visitei desde que fui liberado. os representantes do povo do Brasil, a vitória da democracia contra a tirania e a ditadura, tudo foi um desenvolvimento que inspirou a todos nós. E é por essa razão que estamos tão determinados a destruir o governo apartheid na África do Sul. Muito obrigado”.

Como reconheceu Mandela em seu discurso, as entidades negras brasileiras apoiaram firmemente sua libertação. todas elas colocavam palavras de ordem em seus panfletos e materiais de divulgação: “Pela libertação imediata de Nelson Mandela”,”Pelo fim do apartheid” e “Pela ruptura das relações diplomáticas com o governo racista da África do Sul”. Os grupos protestavam em frente à embaixada e aos consulados e faziam manifestações de rua. Entre as realizações do movimento negro brasileiro, naquela ocasião, temos a memorável Carta Aberta a Mandela, escrita por Hamilton Cardoso. o grande poeta Arnaldo Xavier redigiu o discurso que Flávio Jorge leu na Prefeitura. A Subcomissão do Negro da OAB escreveu em suas faixas para o evento ecumênico na Catedral da Sé: “We also have apartheid here”. Mandela acreditava, inicialmente, como muitos africanos, que havia democracia racial no Brasil. Mas o movimento, em especial na Bahia, mostrou a ele que não era bem assim, mostrou que se tratava muito mais de um discurso do que de uma prática, por ausência da implementação de medidas reparatórias pós-escravidão. o racismo se renova e está presente até hoje no comportamento de milhões de brasileiros. Mais grave ainda, existe racismo institucional na magistratura, no parlamento, no ministério público, na advocacia, nas forças armadas e no meio empresarial.
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