O Massacre de Sharpeville: Porque as Vidas Negras Importam.

21 de março de 1960, Sharpeville, província de Gautung, África do Sul. 69 jovens sul africanos sãobrutalmente assassinados e 186 ficam feridos peloExército do regime de Apartheid daquele país. Este episódio ficou conhecido mundialmente como o “Massacre de Sharpeville”. E não era para menos: a manifestação era pacífica, e os 20 mil negros que foram atacados pelas tropas do Exército sul africano,nada mais queriam do que a revogação da Lei do Passe que limitava a circulação de negros/as a poucos lugares em seu próprio país e obrigava-os a andar com uma caderneta na mão que indicava os locais onde tinham permissão para circular.

A brutalidade e a covardia desta ação foramtamanhas que provocou uma onda de indignação e protestos por todo o mundo, resultando em sérias sanções econômicas ao governo sul africano, culminando seis anos após com a decretação pela Organização das Nações Unidas como o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, como forma de homenagear os mártires daquele massacre

25 de maio de 2020, Powderhorn, Mineapolis, Estados Unidos. O afro-americano George Floyd, é brutalmente assassinado por um policial, norte americano, que ajoelhou-se no seu pescoço durante oito minutos e quarenta e seis segundos, apesar dos seus insistentes apelos de: “Não consigo respirar”. Este episódio, além de chocar a todos/as pela frieza com que Floyd foi executado, desencadeou as maiores manifestações antirracista ocorridas no mundo desde a década de sessenta, tendo como mote a campanha “Vidas Negras Importam”. 

Outro dado importante deste episódio é que pela primeira vez a maioria absoluta dos manifestantes tanto nos Estados Unidos quanto nos demais países, que protestavam contra o racismo eram não negros. Revelando assim que a questão racial não é mais da conta exclusiva das suas vítimas, mas de todos aqueles que prezam e respeitam a humanidade. 

19 de novembro de 2020, estacionamento do Carrefour, Porto Alegre, Brasil. Um cidadão negro João Alberto Silveira Freitas, é brutalmente espancado por seguranças e assassinado por asfixia. Este fato causou comoção nacional, manifestações por todo o país, obrigando inclusive, não só a empresa a refazer todos os seus protocolos de segurança, assim como a criação de uma comissão, pela Câmara dos Deputados, de notáveis juristas do movimento negro, para o enfrentamento do racismo estrutural vigente em nossa sociedade.

Três episódios dantescos, em três países distintos, mas com um DNA em comum – o Racismo. Esses três exemplos demonstram com clareza não só a gravidade da questão racial no mundo como a emergência no seu combate. Do mesmo modo, aponta de maneira cabal o quão perigoso e letal o racismo pode ser e os estragos sociais que pode fazer. Não importa se é na África do Sul, nos Estados Unidos ou no Brasil, o potencial destrutivo do racismo se faz presente da mesma forma – ceifando direitos e dignidades e o que é pior, ceifando vidas. 

Portanto, celebrar o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, ainda mais numa publicação como a Revista Raça, é muito mais que um registro histórico. É mais uma oportunidade de reafirmarmos o nosso compromisso com o combate ao racismo, com a promoção da igualdade racial e, sobretudo com a defesa intransigente dos direitos humanos para toda e qualquer pessoa que seja discriminada nesse país. Afinal, a luta pela igualdade, o respeito à diversidade, seja ela de que ordem for; racial, de gênero, cultural ou religiosa é uma obrigação de todos/as que acreditam na democracia como um exercício permanente da cidadania. 

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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