Presente nas discussões dos últimos meses, a homofobia deve também despertar a atenção, principalmente, para cada um de nós: por que o jeito e o querer do outro em ser ou estar no mundo nos afeta tanto? Confira

 

TEXTO: Redação | Adaptação web: David Pereira

O problema da homofobia

O problema da homofobia

Quem de nós nunca contou ou riu de uma piada infame sobre baixinhos, gordinhos, homossexuais, judeus, portugueses e mesmo sobre negros? Quantas vezes o som de nosso riso não provocou o horror na alma de alguém? Quantas vezes esquecemos que, como humano, aquele outro também sofre ética e moralmente com nossos atos, que consideramos “inocentes”, mas que reproduzem perversamente relações complexas, que desumanizam pessoas e mesmo podem levar ao desequilíbrio, doença, deformações e até mesmo à morte.

Juntamente com outras formas de discriminação a homofobia caracteriza-se por um tipo de medo, aversão, desprezo e mesmo horror manifestado de forma pré-conceituosa, exagerada ou irracional ante a homossexualidade ou em relação a pessoas homossexuais (Lésbicas, Gays, bissexuais, travestis etransexuais – LGBT). Varia em sua intensidade e quanto ao sentimento produzido: desde impedimentos e violência, do olhar enviesado às humilhações e agressões de ordem moral, física e material, culminando com espancamentos, violações e mesmo o assassinato.

Dados do Relatório de Assassinato de LGBT de 2013 (referente aos dados de 2012) apontam que 338 homossexuais foram mortos neste país. O documento é resultado de pesquisas desenvolvidas pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), coordenado pelo antropólogo e professor da UFBA, Luiz Mott, e que utilizoudos dados da própria polícia. As informações ali contidas evidenciam o aumento da violência contra homossexuais ao longo dos últimos 7 anos, em torno de 177%. Esses dados colocam o Brasil no topo da lista mundial de assassinatos por homofobia. São 44% do total desse tipo de morte em todo omundo. Para se ter uma noção da gravidade da situação, em 2011, cerca de 15 travestis foram assassinados nos EUA , a violência homofóbica contra tal grupo matou 128. Talvez, no entanto, o mais alarmante em tudo isso, sejam as marcas de impunidade. Somente em 89 incidências foram identificados oscriminosos, que em geral agem em grupos, atacando vítimas sozinhas ou casais. Em 73% dos casos não houve captura dos assassinos.

Assumir a própria homossexualidade num país como o Brasil é um ato de coragem e posicionamento político perante a nossa realidade. É a partir dos movimentos organizados que importantes reivindicações dos grupos estão sendo apresentadas e discutidas publicamente tanto nos poderes estatais (legislativo e Judiciário) quanto em níveis da opinião pública.

Destacam-se como resultados práticos das lutas implementadas pelos grupos e o engajamento de pessoas de orientação heterossexual, também, assim como associações e manifestações públicas de orgulho LGBT: o disque 100, usado para denúncias de crimes homofóbicos; o direito de cirurgias reparadoras para transexuais; a união estável entre pessoas do mesmo sexo, bem como os diversos Conselhos de Defesa de Direitos de LGBT e órgãos afins (municipais e estaduais) atrelados à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, esta última responsável pelo Plano Nacional de Defesa dos direitos Homossexuais.

Por outro lado, a tramitação da Projeto de Lei 122/2006, que objetiva transformar a homofobia em crime, encontra barreiras de aprovação tendo em vista, por exemplo, a reivindicação de algumas entidades religiosas em manter seu direito de livre expressão religiosa, ou seja, no caso, o direito de criticar publicamente a homossexualidade.

A homofobia, além de uma forma de preconceito é uma forma de violência

A homofobia, além de uma forma de preconceito é uma forma de violência

Homofobia, assim como racismo, violência contra mulher entre outros não é apenas mais uma forma de preconceito. É uma forma de violência; logo, há a intenção de prejudicar, agredir e/ou eliminar o outro do convívio ou da própria humanidade. A discriminação, assim como o racismo, perpassa por relações de poder que impedem grupos de exercerem plenamente sua cidadania e os destituem das esferas de poder e de debate; o que significa que grupos de negros são sensivelmente mais prejudicados socialmente pelo racismo, por exemplo, que grupos de judeus. Da mesma forma, pessoas não são linchadas por grupos organizados por terem olhos azuis, serem obesas ou portadores de deficiência. Preconceitos podem levar a discriminação e esta pode resultar em ações letais para indivíduos e grupos. Assim, comparações e atenuantes sobre dados, números e conceitos servem apenas para desqualificar o crime qualificado a nossa frente: o travesti espancado e morto no passeio público por um grupo de pessoas que odeiam gays – desumanizado e olhado por muitos como algoz da própria sorte (assim como a mulher estuprada, o negro fuzilado na favela etc.).

Mas nem tudo são farpas, “quem traz no corpo essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida”. No caso, entre as inúmeras ações para atingir a opinião pública e pelo esclarecimento efetivo da população destacam-se aschamadas “Paradas Gays” do Brasil. Pensadas como atos de luta, defesa da igualdade de direitos as Paradas Gays levam graça e descontração ao um debate que deve ser cada vez mais público e democrático. É dessa forma que entre o glamour e o deboche, grupos dos mais divesificados se encontram pela cidades do Brasil e do mundo para manifestar-se na luta por uma sociedade mais justa. A primeira manifestação nesse sentido remonta os Estados Unidos de 1969, quando após a reação dos frequentadores a uma batida policial no bar gay “Stonewall Inn”, um grupo de cerca de mil manifestantes se concentrou ali para protestar contra os abusos dos policiais. Nos anos subseqüentes, a data de 28/6 passou a se destacar pelas manifestações em várias partes dos EUA. No Brasil, desde 1995 que trios elétricos, desfiles, descursos e encontros marcam uma união das cores do arco-íris na superação de preconceitos. Em 1996, São Paulo entra para o calendário mundial conseguindo um público recorde logo no primeiro evento: 1,5 milhão de pessoas. A 17ª. Edição da parada gay paulistana trouxe o tema “Homofobia tem cura: Educação e criminalização. Preconceito e Exclusão, fora de cogitação.” O fato é que no cotidiano podemos assumir posturas contraditórias, em particular, quando se trata de grupos específicos aos quais não pertencemos. Se a luta é pela justiça e pela igualdade. Como ficamos ante de mais esta diversidade? A questão, no entanto, continua provocando inúmeros posicionamentos nos indivíduos e na sociedade. São aspectos que serão a base do tipo de mundo que queremos ou podemos ter.

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