Veja trechos da entrevista com a costa-riquenha Epsy Campebell, sobre o racismo na América Latina

 

TEXTO: Maurício Pestana | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A ativista anti-racismo Epsy Campebell | FOTO: Divulgação

A ativista anti-racismo Epsy Campebell | FOTO: Divulgação

Ela é uma das principais ativistas feministas e anti-racistas da América Latina.  Com formação em Economia, a costa-riquenha Epsy Campbell faz parte do Partido Ação Cidadã (PAC), tendo sido eleita, em 2002, a quinta deputada negra da Assembléia Nacional de seu país. Em 2006, ficou a um ponto percentual de se tornar vice-presidenta da Costa Rica e derrotar candidatos tradicionais da direita local. Epsy também foi dirigente até o ano de 2005 do Centro de Mulheres Afro-Costarricenses – organização que ajudou a construir na década de 1980. Em sua atuação internacional de combate ao racismo e ao sexismo, fundou o Parlamento Negro das Américas e presidiu a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas. Nesta entrevista ela fala sobre o racismo na América Latina. Confira:

A senhora é uma ativista política na Costa Rica, cujo trabalho sobre a questão racial tem reflexo em toda a América Latina e Caribe. A que se deve essa luta?

Sou uma afro-costariquense de nascimento e este fato me estimulou sempre a reivindicar e impulsionar uma luta contra o racismo em meu país. Sou também uma ativista política muito atuante, sobretudo na luta contra o racismo e o sexismo, por isso tenho uma atuação muito grande no movimento de mulheres negras da Costa Rica e de toda a América Latina.

Como são as relações raciais em seu país?

Nada diferente do resto da América. Construímos nossa identidade a partir de uma raiz europeu-ocidental e, historicamente, rejeitando a presença negra em nossa história e, na nossa vida cotidiana, excluindo e discriminando a população afro descendente. Tem sido assim em toda América Latina e na Costa Rica não é diferente. Nossa diferença talvez seja o fato de termos construído um importante desenvolvimento humano, no qual a população negra alcançou um nível aceitável e parecido com alguns indicadores com o resto da população, embora a discriminação continue um tema presente. Por isso eu e um grupo de amigas pensamos que era necessário iniciar um debate em nível nacional sobre a situação da população afro descendente, sobre o racismo, discriminação e questionar um pouco esta identidade européia que tentavam nos impor. Assim iniciei minha militância política como agente social dentro da universidade onde estudava. Logo passei a ser dirigente do movimento estudantil e local, sempre com uma perspectiva afro e política para toda a população costarriquense, entendendo que somos uma população diaspórica afro-descendente e estamos em todos os lugares.

"Construímos nossa identidade a partir de uma raiz europeu-ocidental e, historicamente, rejeitando a presença negra em nossa história e, na nossa vida cotidiana, excluindo e discriminando a população afro descendente" | FOTO: Divulgação

"Construímos nossa identidade a partir de uma raiz europeu-ocidental e, historicamente, rejeitando a presença negra em nossa história e, na nossa vida cotidiana, excluindo e discriminando a população afro descendente" | FOTO: Divulgação

Vem daí essa consciência maior de afro latinidade? 

Sim! Senti que havia uma necessidade de construir uma identidade global e mais latino-americana com uma articulação que nos permitiria ter visibilidade em toda a região. O passo seguinte para a internacionalização foi praticamente automático, vinculando-me, primeiro, ao movimento das mulheres afro-latinas e caribenhas. Com o tempo coordenei a Rede de Mulheres Afro da América Latina e Caribe, passando para um movimento mais amplo em redes e organizações afro descendente.e internacional.

Os negros da América Latina, somados aos 80 milhões de negros brasileiros, somam mais de 150 milhões de afrodescendentes. De que forma essa população pode ser integrada?

Primeiro juntarmos os pares, precisamos que os profissionais de comunicação se conheçam, saibam o que um e outro está fazendo em seu país, o que o pessoal da cultura está realizando, os acadêmicos estão estudando, enfim, mapear todas as áreas de forma continental. E quando digo uma rede continental não é só uma típica rede que nós conhecemos, e sim numa proposta que leve em consideração que somamos mais de 150 milhões de pessoas. Somos a maioria e mais importante da América Latina, não a minoria como sempre disseram. Estou convencida que estamos chegando a um tempo em que essa construção continental de afros descendentes será uma realidade e, em breve, poderemos chegar ao Brasil, Costa Rica, Colômbia, Honduras, Nicarágua e Uruguai, com a capacidade de nos entender como uma nação transnacional. É nessa construção que acredito.

 

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