O colunista Fábio Rogério escreve sobre como o rap o fez pensar diferente da maioria. Confira

 

TEXTO: Fábio Rogério* | FOTO: Cláudio Lira | Adaptação web: David Pereira

"Ouvir rap foi a minha forma de ter um pensamento intelectual", Fábio Rogério | FOTO: Cláudio Lira

"Ouvir rap foi a minha forma de ter um pensamento intelectual", Fábio Rogério | FOTO: Cláudio Lira

 

 

Alguns anos da minha vida foram marcados pelo futebol e pela cultura afro-brasileira, que pelo rádio me seduzia através da música com forte intenção de conscientização. Inspirado por “Fight the Power”, do Public Enemy, comecei a conhecer as ruas, pensar em politica e “correr atrás do lucro, e não do prejuízo”, como dizem.

Meu finado pai, o sr. Vicente, era um homem simples e nunca teve um carro. Me levava para passear de ônibus pela cidade de São Paulo, e aquilo me encantava. De lá pra cá muitas coisas mudaram. Não corto mais chicletes em duas partes para comer em dois dias, nem sou mais tão fã do Ronald, patrono mundial dos hambúrgueres. Entretanto, o sonho que tinha na infância, de comer um bauru ou uma feijoada em uma padaria de esquina, felizmente hoje é real.

Como minha família não tinha hábitos culturais, ouvir rap foi a minha forma de ter um pensamento intelectual. Ele me forçou a pensar fora da caixa e a avaliar o politicamente correto. Concordo com a frase que diz que o povo brasileiro está enxergando apenas agora o que o rap já dizia há quase três décadas.

Vejam: dormir bem é uma recomendação egípcia, portanto secular, para quem quer se curar de algum mal estar. Ouçam e reflitam sobre a canção “Vote em Mim”, presente no álbum Super Remixes (1992), do Sampa Crew. Os votos adormecidos foram despertados. Dicró já dizia que “carregar bebê chorão, comer pastel na feira, ceder areia, cimento, dar cachaça, tira-gosto e dinheiro de montão” não é mais suficiente para ganhar uma eleição.

Nunca questionamos tanto o fato de termos que trabalhar em busca de míseros reais para compensar os ganhos dos políticos. Os que vivem às margens da sociedade levantaram bandeiras de sol a sol. Como diz o rapper Gog, existem os “assassinos sociais e os poderosos são demais”. Em busca de um Brasil mais justo e feliz, saímos da zona de conforto, finalmente. Daqui pra frente, política é para os fortes. Alguns brincaram além da conta, agora não adianta dizer “foi sem querer querendo”, como diz o arteiro Chaves, de Roberto Bolaños.

O povo brasileiro está confiante. “Todo brasileiro tem o sonho de ter um carro, casa própria e um pouco de alegria”, canta Duck Jam & Nação Hip Hop. “São patéticas as promessas de política!”, exclama Athalyba e a Firma. “Cadê aquelas promessas que você sempre fazia? Jurava, jurava que nos ajudaria! Mas, no entanto, nossa gente continua largada”, reclama o Comando Dmc, em Tributo ao Presidente. Mais amor, mais rap e mais atenção ao povo, por favor!

* Fábio Rogério é DJ e locutor do programa Espaço RAP, pela 105 FM

 

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