A Dra. Katleen Conceição explica como foi a escolha de se especializar em pele negra

 

Texto: Maurício Pestana | Foto: Divulgação |Adaptação Web Sara Loup

Dra. Katleen Conceição | Foto: Divulgação

Dra. Katleen Conceição | Foto: Divulgação

Existem pouquíssimos médicos negros no Brasil. Dermatologistas, então! E dermatologistas especializados em pele negra? Nesse caso, apenas um, ou melhor, uma: Dra. Katleen Conceição.

Em entrevista exclusiva a Dra. explica a sua escolha:

Raça Brasil: Por que a escolha da profissão de medicina com especialização em pele negra?

Katleen Conceição: Acredito que muito por conta da história de meu pai. Quando pequeno, decidiu ser médico e, desde o começo, sentiu o racismo. Minha avó era técnica de enfermagem e também faxineira de um colégio conceituado em Porto Alegre. Perguntaram para o meu pai o que ele queria ser: “Eu quero ser médico”, disse. Deram uma gargalhada. Então, ele estudou para ser médico, serviu o exército é coronel e, como nós sabemos, o racismo no Brasil impede certas coisas de maneira muito sutil. Ele veio para o Rio de Janeiro. Eu tinha três anos, meu outro irmão, apenas um. E meu pai sempre se preocupou com os estudos, focou nas escolas caras do Rio de Janeiro. Com dez anos, fui para o Colégio Alemão, fiquei lá por quatro anos. Saí porque ele foi transferido para Manaus. Na verdade, eu gostaria de cursar publicidade, mas, por influência paterna, fiz medicina. Durante a faculdade, eu quis fazer pediatria, comecei a dar plantão, fiz residência e me formei.

RB: E a especialização em pele negra?

Katleen: Não havia como tem hoje o combate de doenças em pele negra, não existia isso e sim cursos caros que você tinha que pagar. Fiz curso de medicina estética com duração de seis meses. A professora titular saiu, e me chamaram para eu assumir a turma. Imagine: eu era aluna com seis meses de curso e virei professora dos meus colegas dermatologistas, negra, muito mais nova que muita gente. Brinco que sofri um preconceito durante uns quatro anos, todo mundo adorava as minhas aulas no começo. Depois, começaram a me tirar porque eu incomodava; dizia que as pessoas tinham que estudar mais, sempre fui muito polêmica, falava de dedicação, que, não tinham que visar apenas a grana, mas ser mesmo um médico que tem carinho pelo paciente.

RB: No Brasil existem muitos dermatologistas especializados em pele negra?

Katleen: Não, só eu!

RB: Quais as principais diferenças entre a pele negra e a branca?

Katleen: A pele negra contém uma quantidade maior de melanina, isso para a gente é bom, porque nos confere uma forte proteção. Embora tenhamos uma facilidade de manchar muito mais fácil, tendência a manchas escuras e também manchas brancas que, às vezes, é uma alergia. Quando você faz um laser na pele negra, tem que explicar que ela reage produzindo melanina, só que isso é normal na pele negra, depois clareia.

RB: A senhora já sofreu preconceito por ser médica, afinal, no Brasil, é um tanto difícil médicos negros, dermatologista, então...(Gritos e risos )

Katleen: Várias vezes! Isso é normal até hoje. Engraçado porque, desde pequena, meu pai me orientou a sempre me cuidar bem, me vestir muito bem com roupas clássicas, estar arrumada para ir até o mercado. Numa ocasião, estava parada na a recepção e havia uma senhora mulata, depois descobri que ela era amiga da minha paciente. Estávamos conversando sobre drenagem e ela perguntou se eu era a massagista. E eu, com o jaleco escrito dra. Katleen, respondi não, não sou e também não respondi o que eu era. Fui atender a paciente e, quando ela saiu da sala comigo, a referida senhora estava sentada e, quando me viu, levou um susto. Minha paciente nos apresentou: “Essa é a Dra. Katleen”.E eu disse: “Pois é, ela acabou de me confundir com a massagista da clínica, que coisa engraçada.”

RB: Qual o principal obstáculo que a senhora encontrou na vida?

Katleen: A cor! Fui criada em berço de ouro, pai médico, na zona sul do Rio de Janeiro, Posto 10, restaurantes caros, só que eu fui avançando. Quando chegou na parte profissional, disseram que já estava demais. “Aqui não”. “Aqui sim”, respondi. Tudo bem, demorou quatro anos, mas aqui sim e fui. Hoje eu sou chamada para congressos na minha sociedade, estou pensando em criar um setor de pele negra dentro da dermatologia, tem um monte de setor, mas não tem o setor de pele negra.

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