Conheça a história de Maria da Penha, pioneira na arte dos penteados com tranças em São Paulo

 

TEXTO: Christiane Gomes | FOTOS: Rafael Cusato e arquivo pessoal | Adaptação web: David Pereira

Penteados com trança | FOTO: Rafael Cusato e Arquivo Pessoal

Penteados com trança | FOTO: Rafael Cusato e Arquivo Pessoal

Quem vê boa parte da juventude negra hoje andando pelas ruas da cidade cheia de orgulho de seus cabelos black, com dreads, trançados ou com turbantes, nem imagina que, não faz muito tempo, a história era bem outra. Houve uma época que trançar os cabelos era algo exótico, folclórico até, e poderia fazer parte do cotidiano das negras baianas, ou no máximo, as cariocas.

Na terra da garoa, a moda eram os cabelos alisados ou no máximo os black power, à la Ângela Davis. Porém, uma mulher seria peça fundamental para mudar esse enredo. Maria da Penha do Nascimento nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. Desde cedo gostava de trabalhar com tudo que fosse ligado a artesanato e, nas horas vagas, trançava o cabelo de suas amigas na praia. Em 1979, foi convidada para trabalhar, como ajudante, no salão Afonjá, pioneiro em tranças na capital carioca. O estopim do interesse pelas tranças, curiosamente, veio com a imagem da platinada atriz norte-americana Bo Derek no filme Uma Mulher de Sonho.

Penha conta que, a partir daí o interesse pelas tranças aumentou muito. Mas ela ficou por pouco tempo trabalhando no Rio de Janeiro. Depois de uma curta temporada em Salvador, queria mesmo era alçar voo para uma cidade grande, ter novas experiências e aprender mais. O destino então foi a metrópole São Paulo. Ela conta que, quando chegou, poucos profissionais se arriscavam no trabalho de tranças. As negras paulistanas não se interessavam por esta nova possibilidade de arte em seus cabelos. “Eu ouvia cada história escrabosa. Gente que passava ferro quente no couro cabeludo, que arrancava o cabelo; gente que ficou careca. As mulheres pediam que eu acorrentasse seus cabelos. Um horror! As negras não queriam o cabelo crespo de jeito nenhum”, lembra a cabeleireira.

Diante de tanta negação, Penha conta que iniciou um trabalho de resgate da cultura afro nesta época. “Havia o black power, mas era algo mais ligado à identidade norte-americana, por conta do movimento dos Panteras Negras. A gente trazia uma proposta mais ligada à África. Claro que o black power já trazia a ideologia de que o negro é lindo e que deveria assumir seu cabelo, usá-lo natural, sem alisamento. As pessoas viam a trança como algo negativo porque lembrava senzala. Nosso trabalho era dizer que não! Que aquele era uma outra possibilidade, um penteado para o cabelo afro. Uma nova maneira de ser, de estar, de se portar.”

O caminho não foi fácil, mas aos poucos, a comunidade negra de São Paulo foi aceitando aquela forma diferente de trabalhar o cabelo afro. Um passo fundamental para esta aceitação foi a abertura do histórico Orile, salão que Penha abriu junto com Kika (Valkiria de Souza Silva), na rua Santo Antônio, no bairro do Bixiga que, apesar de ser famoso pela presença italiana, tem em sua origem a forte característica de ter sido um forte bairro negro de São Paulo. Antes de abrir o salão, Penha atendia em sua casa, então localizada no bairro de Santa Cecília, que era um reduto de artistas, capoeiristas, escritores, poetas. Com a inauguração do Orile, em 1982, isso se potencializou. O salão não era simplesmente um lugar para se arrumar os cabelos. De forma natural e espontânea, o local se transformou em um importante ponto de encontro e de diálogo da comunidade negra paulistana. Lá era possível ter acessos a livros, discos, discussões sociais, roupas e acessórios étnicos, informações sobre o candomblé, em uma espécie de quilombo urbano. “Quem quisesse saber o que iria acontecer, bastava ir até o Orile. Eu mudei minha cabeça, minha forma de ver o negro. Descobri muitas coisas por meio dos livros, que abriram muito meu horizonte. A gente se assumiu e tudo começou pela estética. Foi uma mudança de fora para dentro. E hoje, pensando melhor, essa questão da formação e da consciência política foi fundamental para que a gente estivesse firme no nosso propósito, de usar nosso cabelo trançado e nossos tecidos coloridos”, conta Dhora San, terapeuta, amiga e cliente de Penha há mais de 30 anos.

Maria da Penha, pioneira na arte dos penteados com tranças em São Paulo | FOTO: Rafael Cusato e Arquivo Pessoal

Maria da Penha, pioneira na arte dos penteados com tranças em São Paulo | FOTO: Rafael Cusato e Arquivo Pessoal

Ela completa que este visual era visto com muito estranhamento pelas pessoas na rua, fossem negras ou brancas. “A gente era diferente com orgulho.” E este orgulho gerou frutos. Dos encontros e conversas realizadas no Orile surgiram movimentos sociais como o Geledés, o Fala Preta e culturais como o Oriasè, que daria origem ao Ilú Oba de Min. “Muitas das pessoas que eu trancei abriram seus próprios negócios. Hoje existem vários salões nas galerias. Mas na minha época pouca gente fazia trança. Havia muita resistência, principalmente das mulheres que preferiam alisar seus cabelos. Não foi fácil, mas aos poucos elas foram desistindo. E o processo de politização destas mulheres foi muito importante para isso acontecer. Foi um momento muito especial: a política, a cultura e a estética. Tudo junto e misturado”, lembra.

O local era também um espaço para recarregar as forças numa época em que a discriminação racial era ainda maior. Muitos homens que tinham seus cabelos dredados, eram presos. Penha conta que muitos chegavam lá cabisbaixos, porque tinham seus cabelos cortados pela polícia ou haviam sido demitidos. Penha lembra que isso foi mudando quando os meninos brancos começaram a fazer dreads em seus cabelos. “Alguns deles me chamavam de racista porque eu só dredava o cabelos dos negros. Mas eu ainda não tinha descoberto uma forma de fazer dreads em cabelos de brancos, porque este é um penteado perfeito para o negro. Basta a gente lembrar dos rastafáris, na Jamaica e os dreads usados há séculos por tribos africanas. Daí os negros começaram a brigar comigo porque eu fazia o cabelos dos brancos. Eu tirava uma baita onda disso tudo porque eu amo a cultura afro. É a cultura que eu luto para defender, divulgar e manter viva”, diz Penha.

E este caminho fértil que Penha trilhou abriu passagem para uma nova geração que, cheia de orgulho, valoriza seus cabelos, como uma forma de reforçar sua identidade e seu lugar no mundo de hoje. “Hoje, me sinto realizada. Comecei um processo que segue vivo. É fantástico. Vejo meus sobrinhos, jovens, orgulhosos de serem negros. Meu orgulho está nisso. O cabelo nasce de dentro da gente, lá está nosso DNA, nossa auto- estima, nossa identidade. A mulher pode alisar o cabelo se quiser, mas sempre com a consciência de que ela segue sendo negra e que o cabelo vai nascer sempre crespo, enrolado”, finaliza Penha.

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