“Raça indica”

The forty-year-old version

Se você  está prestes a fazer 40 anos ou já passou dessa idade e curtiu o hip hop do final dos anos 90, não deixe de assistir Radha Blank em “The forty-year-old version”.

O filme disponível na Netflix, lançado em Outubro de 2020, conta a história de uma dramaturga negra, que vive em Nova Iorque. Com a proximidade dos 40 anos, ela entra em um processo desesperado por transformação e encontra caminhos ao se deparar com um velho conhecido, o hip hop.

Obviamente as tensões raciais estão ali como pano de fundo da trama, que é embalada por versos impactantes, trilha sonora com batidas potentes, colocadas estrategicamente nos pontos de virada, além da grata surpresa da fotografia do longa-metragem.

Poderia ser um documentário, mas acho que não é. Ou não parece ser, ainda que Radha Blank ou RadhaMUSprime – como também é conhecida na cena cultural norte-americana, tenha escrito, dirigido e estrelado o próprio filme, deixando muitas dúvidas e despertando a curiosidade dos espectadores sobre o quanto ela e a personagem têm em comum.

Perfil de RadhaMUSprime nas redes sociais: https://www.instagram.com/radhamusprime

 

O beijo na parede, de Jeferson Tenório

Quem é e quantos anos tem João, o menino-homem do romance do escritor Jeferson Tenório?

Essa é a pergunta que não quer calar. Em algumas páginas os outros personagens da trama chegam até duvidar da pouca idade do menino João. Eu também!

O primeiro romance do escritor Jeferson  Tenório foi publicado em 2013 e, em 2020, já chegou a 6ª edição. Em 17 curtos capítulos, ideais para a formação de leitores, para quem tem pressa ou simplesmente sede de ler, o escritor apresenta João, o personagem principal de uma trama que logo de cara anuncia o que é ser um menino negro e pobre na cidade do Rio de Janeiro e, depois, em Porto Alegre – e penso que em qualquer lugar desse brasilzão de meu Deus ou do Mundo.

No meio de cada capítulo, João quase te conta alguma coisa ou te explica mais sobre o que está pensando e sobre suas conclusões da vida. Ele simplesmente “se cria”. Finge até ser menos inteligente do que é, menos sozinho do que é, menos triste do que é, para sobreviver e garantir a sua passabilidade nesse mundo.

É um personagem riquíssimo, de uma sabedoria que, de certo, vem de longe. É ancestral! Segundo Nei Lopes, na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, o termo “ancestral” significa “antepassado, ascendente, do bisavô para trás, contribuindo para a evolução da comunidade ao longo da sua existência”.

Segundo a sinopse do livro, disponível na página da editora Sulina, “Jeferson Tenório constrói um narrador singular e tocante nessa sua primeira obra, um verdadeiro arquiteto do invisível, capaz de reposicionar a dor, extrair, entre lágrimas e sorrisos, o sopro de vida de personagens que aparentam estar mortos. Ou simplesmente derrubar as paredes mais duras da existência com um beijo, deixando uma alternativa real para a esperança em seu lugar”.

Saiba mais: https://www.editorasulina.com.br/detalhes.php?id=615
https://www.instagram.com/jeferson.tenorio.9/

Olhos d’água, de Conceição Evaristo

Olhos d’água, de Conceição Evaristo, foi lançado em 2014 e está entre aqueles livros que simplesmente não conseguimos parar de ler até chegar na última página.

Logo na introdução, Jurema Werneck dá a letra e adverte que o lugar de “mero ouvinte é desautorizado” e complementa: “nesta literatura/cultura, a palavra que é dita reivindica o corpo presente. O que quer dizer ação”.

A introdução de Jurema Werneck é um convite para se juntar às histórias, uma antologia de contos, cujo boa parte deles foi originalmente publicados na série “Cadernos Negros”.

É muito fácil se identificar com eles, sobretudo se você for uma mulher negra. Conceição, com perfeição, te coloca na cena, descreve sentimentos e sensações. Te bate na cara, te faz chorar, te dá esperança, te tira a esperança e, sobretudo, te dá lugar enquanto pessoa negra em uma elegante narrativa.

As inúmeras personagens presentes no livro, parece que de forma proposital, nos ensinam a viver. No conto “Ayoluwa, a alegria de nosso povo”, é impossível passar despercebida pelo trecho: “e quando a dor vem encostar-se a nós, enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando a solução”.

Não à toa que a obra de Conceição Evaristo foi contemplada no ano seguinte, 2015, com o terceiro lugar na categoria Contos e Crônicas do Prêmio Jabuti. https://www.premiojabuti.com.br/premiados-por-edicao/premiacao/?ano=2015).

Segundo a editora Pallas, responsável pela publicação da obra, “em Olhos d’água, estão presentes muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, em uma pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira”.

Saiba mais:
https://www.pallaseditora.com.br/produto/Olhos_d_agua/278/
https://www.instagram.com/conceicaoevaristooficial/?hl=en

 

Minha carne: diário de uma prisão de Preta Ferreira

Antes de abrir o livro evoque coragem!

O ano de 2020 não foi fácil, especialmente para o cenário da cultura, que sofreu com espaços fechados e poucas oportunidades de trabalho. Para alguns certamente foi mais difícil que para outros. Em tempos difíceis, é preciso coragem para ler relatos densos, de histórias reais, duras, mas também de sobrevivência, de resiliência e do compartilhamento de aprendizados.

É o que fez a artista (cantora, atriz, produtora, ativista) Preta Ferreira, que em 2020 lançou o livro “Minha Carne: diário de uma prisão” sobre os meses que passou reclusa, sob a acusação de  associação criminosa e extorsão. Ela, seu irmão e outros ativistas, vinculados a movimentos por moradia, foram presos a partir da mesma denúncia.

Em entrevista para uma TV, enquanto ainda estava presa, Preta disse: “Eu estou presa porque nasci em um país.. mulher, preta, pobre, onde quem mandam são os homens brancos, racistas e machistas. Eu estou presa porque briguei lá fora pelos meus direitos constitucionais, porque moradia é um direito constitucional”.

Em um trecho do livro ela diz: “Eu não desejo para ninguém uma vida em um lugar como aquele. Graças a Deus e a minha mãe, eu sempre soube me virar desde cedo. Aprendi o que era humildade e a tratar gente como gente. Foi o que me salvou na prisão. Eu sempre acreditei que ninguém é melhor que ninguém, e aqui essa contestação ficou ainda mais viva”.

Sem dúvida, é preciso coragem para ler e ter a cabeça aberta para aprender com Preta.

A editora informa que o livro “conta com uma apresentação sobre a vida da cantora e com surpresas inesperadas – como quando recebeu em sua casa a visita da ativista Angela Davis –, além de reflexões pós-cárcere em plena pandemia”. Respondendo ao processo em liberdade e obrigada a seguir diversas regras, como horário para sair e voltar para casa e compromissos no fórum de justiça, ainda há um árduo caminho até a finalização do processo: “Eu tô livre, mas continuo presa”.
Saiba mais:  https://www2.boitempoeditorial.com.br/produto/minha-carne-diario-de-uma-prisao-1041
https://www.instagram.com/preferreira/

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Jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, produtora de conteúdo, defensora dos direitos humanos e promotora da equidade de gênero e raça. Escreve sobre beleza, identidade, autoestima, livros e filmes. É também idealizadora do Mundo da Rua Podcast.

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