Resistência e resiliência

Redaçãojulho 25, 20206 min
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Filha de caribenhos, nasci nos Estados Unidos, de pais do Caribe e tive formação acadêmica no México, além de mais de 20 anos de estudos, convivência e experiências como mulher negra no Brasil. Todas nós, mulheres negras das Américas, fazemos parte da Diáspora Histórica de pessoas cujas histórias têm muito em comum.

Entre 1503 e 1870, negros foram tirados contra a vontade de diversos locais do continente africano, trazidos para as Américas para trabalharem como escravos. A mulher africana não escapou a essa experiência desumana. Eram vistas como mercadorias, anônimas e indistintas. Apesar do espírito aguerrido, pertenciam até bem pouco tempo a um grupo de pessoas marginalizadas e invisíveis.

É justamente esse espírito e força de vontade de guerreira que nos leva a pensar em novos marcos civilizatórios, em um novo modelo de sociedade para nós, mulheres, na qual começamos a ter voz e vida. Quando falamos do “lugar da mulher” estamos falando de um “lugar” que serve para nos mostrar que desde muito tempo as mulheres negras vêm lutando para serem sujeitos políticos e produtoras de discursos anti-hegemônicos.

Mulheres como a ex-escrava americana Isabella Baumfree, conhecida como Sojouner Truth, ex-escrava americana, que viajou pelo país para ajudar nas causas abolicionistas e promover os direitos das mulheres; discursou na Convenção dos Direitos das Mulheres de Ohio, em 1851, além de ter recrutado soldados negros para a Guerra Civil.

A jamaicana Amy Ashwood Garvey, dramaturga e ativista pan-africanista, uma das fundadoras da Associação Universal para Desenvolvimento Negro, presidiu a formação da Aliança das Mulheres de Barbados e da África, e até hoje é considerada um dos maiores nomes do movimento pan-africanista;

A uruguaia Virginia Brindis de Salas (pseudônimo de Iris Virginia Salas), ativista, escritora e a primeira mulher negra a publicar uma coletânea de poemas na América do Sul, considerada a principal poeta afro-uruguaia; e no Brasil, a líder quilombola símbolo da resistência contra a escravização, Tereza de Benguela, estrategista militar e dirigente política, que esteve à frente do Quilombo de Quariterê, são mulheres a serem exaltadas.

A escravidão no Caribe inglês resultou na opressão das mulheres negras, que eram delegadas ao trabalho sexual. A resiliência da mulher caribenha negra mudou o tom da história. Muitas se recusaram a se prostrar perante o colonialismo e usavam a escrita como um meio de criticar os impactos sociais. Provaram que a caneta é mais poderosa que a espada e ensinaram a suas compatriotas que a cor de sua pele não as tornava inferiores.

Lembrar a luta das mulheres negras latino-americanas e caribenhas para uma sociedade mais justa, orgulha-nos. Mas a luta continua para que possamos romper as barreiras ainda existentes e o “silêncio ruidoso” frente às desigualdades.

 

*Texto de Alisson Claire Moses, para a Revista RAÇA

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