Saiba mais sobre o evento "Noite dos Tambores", realizado na zona sul de São Paulo

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Leonardo Galina/Guma | Adaptação web: David Pereira

A tradicional Congada de Santa Ifigênia (Mogi das Cruzes/SP) | FOTO: Leonardo Galina/Guma

A tradicional Congada de Santa Ifigênia (Mogi das Cruzes/SP) | FOTO: Leonardo Galina/Guma

Há cinco anos, um dos poucos espaços de cultura da zona sul paulistana é a sede do encontro de tribos de diferentes regiões, cabelos, peles e formação social. Vindos de diversos pontos da cidade, todos chegam para dançar madrugada adentro na Noite dos Tambores. Organizada pelo Instituto Umoja, o encontro, com curadoria do bailarino e produtor cultural Euler Alves, tem como principal objetivo reunir os diferentes timbres, toques, contextos sagrados e festivos onde os tambores aparecem, combinando a diversidade rítmica com a social. “Quando o som bate lá no morro, todo mundo desce para ver”, diz o produtor.

Na segunda sexta-feira de maio, aproximadamente mil pessoas se encontraram em frente ao palco para dançar ritmos sagrados. Os destaques foram o candomblé do Ilu Egbá (São Paulo), a tradicional Congada de Santa Ifigênia (Mogi das Cruzes/SP), as ecléticas Salloma Salomão (São Paulo) e Orquestra de Tambores de Alagoas (Maceió/AL), o axé do bloco afro Muzenza (Salvador/BA) e o ritmo contagiante do carimbó com o grupo Os Quentes da Madrugada (Santarém/PA).

Nem a chuva e nem o frio desanimaram o público, que entre uma apresentação e outra pôde assistir ao vivo a confecção de um tambor, feito pelo artista e luthier Luis Poeira (Instituto Tambor - SP). Há dezesseis anos, Poeira se dedica à confecção e pesquisa dos instrumentos nos seus variados timbres, formatos e etnias. Para ele, “o tambor deve ser respeitado, por de trás de cada instrumento existe uma história a ser contada”. “O tambor é o elemento ancestral da comunicação de diversos povos e tradições”, relembrou o músico Alan Gonçalves. Na Noite dos Tambores, a tradição foi mantida com bandeiras erguidas e batuques contagiantes.

Retornado às origens dos ritmos afroancestrais, o grupo Ilu Egba abriu a noite pedindo licença aos orixás e à comunidade para a batucada adentrar a madrugada. Euler explicou: “É importante sabermos nossas referências dos ritmos afrorreligiosos. É preciso ouvir e dissipar o preconceito que ainda existe”.

Mais forte e mais alto que o açoite dos feitores, os tambores do grupo Os Quentes da Madrugada revelaram a luta do grupo em ser reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro: “Foram dois anos de luta, tocamos carimbó de Brasília ao Pará, recolhendo assinaturas por dezoito dias, para termos o reconhecimento de patrimônio. Há cinco gerações tocamos e animamos as madrugadas de Santarém”, contou o mestre carimbozeiro Dico Boi, à luz de seus 75 anos.

Salloma Salomão (São Paulo) | FOTO: Leonardo Galina/Guma

Salloma Salomão (São Paulo) | FOTO: Leonardo Galina/Guma

Se, ao falar de tambor, imediatamente evoca-se o sentido de ancestralidade, a Orquestra de Tambores de Alagoas uniu a tradição dos ritmos dos orixás aos da cultura popular nordestina. “O que tocamos são as referências de nossa infância, das brincadeiras e manifestações populares. Tocamos o que vivemos no dia-a-dia”, explicou Wilson Santos, músico do grupo.Vestido de verde e branco, Congada de Santa Ifigênia foi o primeiro grupo a trazer uma mulher como mestre de congada, a cantora Gislaine Donizete. “Estamos na quarta geração, herdei a congada do meu pai. Mantemos o grupo com o nosso esforço e recursos”, contou Gislaine. A noite esfriou, a chuva caiu e o público continuou dançando ao ritmo dos tambores do bloco afro Muzenza, que trouxe para o centro da Casa de Cultura o axé baiano e a cadência do reggae jamaicano. “Cada bloco segue uma linha, mas no final das contas o resultado é um só: a cultura afrobrasileira”, afirmou o vocalista Nei Catuagem. Marcada pela escassez de recursos e pelas dificuldades sociais de seus moradores, a região do M’Boi Mirim tem na Noite dos Tambores um ponto de referência na luta pelo ativismo cultural na zona sul. Mais do que shows de diferentes ritmos e manifestações dos tambores, o evento é “um processo de formação de diálogo de diferentes linguagens com a comunidade”, nas palavras de Euler Alves.

Para o músico, historiador e pesquisador afromineiro Salloma Salomão, que participa do evento desde a primeira edição, para além de um encontro com herança da diáspora africana, a Noite dos Tambores tem dois aspectos importantes: “O conhecimento do passado e um olhar para o futuro, onde nos perguntamos qual sociedade queremos construir. A Noite dos Tambores é uma resistência, uma resposta, é uma nova realidade política onde a arte é fundamental”, disse.

Às 4 horas da madrugada, Os Quentes da Madrugada entraram no palco para encerrar a noite, que ecoou nos quatro cantos da zona sul da Pauliceia. A chuva já havia cessado e os movimentos compassados do carimbó já haviam espantado o frio.

 

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