Saiba mais sobre as rodas de samba existentes no Brasil

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Rodas de samba pelo Brasil | FOTO: Divulgação

Rodas de samba pelo Brasil | FOTO: Divulgação

Em São Paulo, são aproximadamente 83 rodas de samba e no Rio de Janeiro e Bahia, chegam a 100 o número de comunidades que tem como foco preservar o samba e descolá-lo do estereótipo carnavalesco. “As rodas preservam a memória do terreiro que muitas escolas deixaram de lado”, afirma Renato Dias, músico e pesquisador paulistano.

Descoladas da badalação das quadras de samba do grupo especial e dos motores dos trios-elétricos, as comunidades ou terreiros de samba, como são chamadas as rodas, acontecem periodicamente e cada uma apresenta uma peculiaridade: desde de uma vela no centro da mesa que determina a duração do encontro, até um bule com cachaça que é servido aos participantes, ou um sino que soa e determina o inicio e o fim do encontro e por aí vai. No entanto, as rodas de samba são, sobretudo, um espaço vivo para relembrar a memória e cantar samba indo de Riachão, Cartola, Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro aos contemporâneos Paulo Cesar Pinheiro, Eduargo Gudin, Paulinho da Viola, Martinho da Vila ente outros.

As rodas criam um campo para o saudosismo e oralidade, onde gerações, jovens e velhos, homens e mulheres se encontram. Nas palavras de Wilson Freitas, da Associação de Bares de Samba na Bahia, “esse fenômeno particular do saudosismo vem acontecendo de tal forma que vão se criando espaços e lugares para cultuar esse tipo de samba com tribos formadas por pessoas cada vez mais jovens, mais bem informadas”.

O que se vê nas rodas não se vê na tela da TV. Ao longo dos anos, com a grande mídia veiculando e incorporando alguns sambistas nos seus quadros televisivos, trilhas de novela e vinheta institucional, o samba ganhou um novo espaço e tornou-se sinônimo de “pagode” e “carnaval”. “O importante nisso tudo é dissociar o samba de carnaval daquele que outrora se chamava de samba ‘de meio de ano’, que é o do rádio e da indústria fonográfica. Isso é fundamental!” relembra o pesquisador, escritor e músico Nei Lopes.

Embora os espaços destinados às comunidades ainda sejam a periferia, as garagens, os galpões, e as quadras das escolas mantenham as portas fechadas ao longo do ano, as rodas apontam outro dado importante: a intervenção e ocupação do espaço público. As praças e as casas de cultura administradas pelo poder público servem de local para os encontros acontecerem. “As rodas ocupam o espaço que as escolas deixaram de ocupar. Hoje em dia, as comunidades de roda de samba são os celeiros de compositores, espaço de sociabilização e intervenção pública que as grandes escolas de samba deixaram de ser”, analisa a historiadora Kelly Adriano.

Fruto de um projeto político de nacionalização, iniciado em 1930 e muito bem incorporado ao longo dos anos de 1950, o samba passou a ser produto de exportação e se transformou em ícone da identidade brasileira. Com o tempo, as comunidades e blocos de carnaval se transformaram nas quadras e agremiações que compõem o carnaval.O Brasil acabou criando um produto para exportação e incorporação na indústria cultural. “As rodas de samba são uma reação inconsciente à exclusão e à desafricanização. O samba só foi aceito quando foi desafricanizado para ser urbano. É muito importante pensar nisso”, explica Nei Lopes.

Nas palavras de Tadeu Kaçula, presidente da Camisa Verde e Branco, pesquisador e sambista paulistano, a preservação e o surgimento das comunidades de samba servem de “resistência ante o processo ou tendência do embranquecimento do samba. Além da manutenção e resgate da memória, esses grupos revelam a construção de um empreendedorismo afrodescendente”.

 

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