Grupos teatrais se formam na periferia e levam muito mais do que apenas arte a uma extensa camada marginalizada da população

 

TEXTO: Alexandre Duarte | FOTOS: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Teatro na periferia | FOTO: Divulgação

Teatro na periferia | FOTO: Divulgação

Confira nesta matéria três grupos teatrais, pioneiros na função de levar arte (e muito mais), a quem não tem acesso a ela. Senhoras e senhores, respeitável público, com vocês, o Pombas Urbanas, a Trupe Artemanha de Investigação Urbana e o Buraco D’Oráculo.

POMBAS URBANAS

Há quase 23 anos, o grupo de teatro Pombas Urbanas é um dos pioneiros em levar à periferia de São Paulo, teatro e entretenimento às pessoas que muitas vezes nunca teriam contato com essa expressão artística, se não fossem eles. Ellen Riobranco, atriz formada pelo grupo, é uma delas. “Eu nunca tinha estado no teatro, até eles surgirem por aqui”, conta ela.

O grupo nasceu a partir de um projeto do diretor Lino Rojas chamado “Semear Asas”. A ideia inicial do projeto era formar, no bairro de São Miguel Paulista, atores e técnicos para trabalhar com teatro. Em seu método, o grupo faz jus a sua origem e tira da própria convivência com essas comunidades carentes a matéria-prima de suas peças, e devolve isso a elas, de certa maneira, retratando essa realidade por meio da arte teatral. Eles atuam de diversas formas: no teatro de rua, infantil, jovem, adulto e, é claro, no palco. Durante sua longa existência, a trupe conseguiu percorrer todas as regiões marginalizadas da cidade, numa espécie de missão que passa longe dos holofotes, mas que é recompensada pela reação das pessoas e pelo interesse que despertam nelas.

Por muito tempo eles procuraram um lugar onde pudessem ensaiar, pesquisar, montar suas peças e ainda abrigar os jovens que se interessavam por teatro. A partir de 2004, a companhia conseguiu a cessão de um galpão na Cidade Tiradentes. O local se transformou no Centro Cultural Arte em Construção, dando início a uma intensa relação entre os artistas e a comunidade, e abrindo espaço para a criação de novos talentos. “Eu sou do primeiro núcleo formado no Centro. Quando as inscrições começaram, 800 pessoas se inscreveram, muitos, como eu, movidos pela curiosidade”, diz a atriz Ellen. O resultado mais evidente dessa parceria foi a peça “Histórias Para Serem Contadas”, que deu voz a muitos moradores da região, que se viram representados no palco pela trupe teatral. O Pombas Urbanas continua a todo gás; atende cerca de 300 pessoas e desenvolve atividades todo final de semana. Atualmente são cinco núcleos teatrais formados no local, que se tornaram uma referência na construção de uma arte comunitária, que alimenta e se alimenta da vida na periferia para levar alegria e reflexão à sua população.

TRUPE ARTEMANHA DE INVESTIGAÇÃO URBANA

Os números da Trupe Artemanha de Investigação Urbana são tão grandes quanto o nome dessa guerreira companhia de teatro. Eles começaram em 1996, em Taboão da Serra. Ficaram na região por cerca de oito anos, onde se apresentaram para cerca de 60 mil espectadores em mais de 300 performances. O lugar começou a ficar pequeno para tanta gente e tanta energia, então eles expandiram essa atuação para outras regiões periféricas da zona sul de São Paulo. A partir de 2005, já sediados em Campo Limpo, eles se apresentaram nos bairros de Paraisópolis, Capão Redondo e Vila Andrade, e levaram o teatro a uma região com cerca de 550 mil habitantes. “Nosso trabalho dialoga muito com o local que escolhemos. Sempre fomos periferia”, conta Luciano Santiago, ator e diretor, que está com o grupo desde sua formação.

O diálogo que a Trupe estabeleceu com a população carente, de cerca forma, não difere muito de outros grupos com as mesmas características. Mas eles realizaram trabalhos diretamente nas ruas, colocando sua arte à prova de uma população completamente desassistida, quando o assunto é arte. Dessa maneira, o foco do grupo passou a ser a rua, e suas pesquisas se voltaram para as pessoas que moram e trabalham nas ruas da cidade, com o intuito de se aproximar da melhor maneira possível desse público, muitas vezes inesperado e sempre surpreendente.
A atuação social da Trupe também ultrapassa barreiras. “Nós temos uma oficina de formação de atores que é uma escola mesmo, em que as pessoas ficam estudando 15 meses”, diz Luciano, e complementa, “é mais do que formação, é transformação”. O local onde eles ensinam e ensaiam é um galpão no Campo Limpo, que depois de ficar muito tempo abandonado, foi revitalizado pela arte. Mas Luciano faz uma ressalva: “Quando o poder público viu que a coisa funcionava, depois que fizemos tudo, começou a nos ameaçar, querendo tomar de volta o que construímos. ”Em suas apresentações, a Trupe reúne arte circense, danças dramáticas, commedia dell’arte e ritmos populares, criando espetáculos de fácil identificação com o público, mas também cheios de conteúdo. Tanto que sua mais recente peça “Vi Macunaíma na Rua! – O Herói Sem Nenhum Caráter” é baseada no personagem Macunaíma, de Mário de Andrade.

A Trupe Artemanha também usa a rua como palco, democratizando o teatro e levando arte a todos | FOTO: Trupe Artemanha/Divulgação

A Trupe Artemanha também usa a rua como palco, democratizando o teatro e levando arte a todos | FOTO: Trupe Artemanha/Divulgação

BURACO D’ORÁCULO

A rua também é o palco do grupo teatral Buraco D’Oráculo, formado em 1998. Com o objetivo de discutir o homem urbano e seus problemas, a companhia, formada depois de uma oficina de teatro, se baseia em três pilares para levar ao público da periferia essa noção: teatro de rua (como espaço para o encontro com seu público), cultura popular (para gerar a inspiração e a motivação) e teatro cômico.

Por conta disso, desde seu início, o grupo criou uma forma de comunicação receptiva com essas pessoas. “Escolhemos a rua por ser a possibilidade de levar o teatro para quem não tem a oportunidade de frequentar as salas”, diz Adilton Alves, um dos fundadores do grupo. Durante dois anos (1999 e 2000), a trupe teatral formou não só a sua personalidade, mas definiu os pilares que sustentam os espetáculos da Buraco D’Oráculo até hoje. Com essa característica definida, e com a experiência da rua, o grupo passou, em 2002, a ter uma atuação mais evidente na zona leste de São Paulo, mais especificamente no bairro de São Miguel.

Daí foi um pulo para projetos interessantes, que buscaram levar as pessoas carente a arte e a alegria de peças que retratam tipos à margem da sociedade e têm como personagens vendedores ambulantes, pedintes de rua, charlatões e outros tão comuns ao dia a dia de toda essa população, mas que nem sempre são vistos. “Nos nossos espetáculos nas ruas, sempre encontramos pessoas que nunca viram teatro, e elas são muito receptivas”, conta Adailton.

Entre as ações de maior destaque da Buraco D’Oráculo, está a sequência de apresentações nos populosos conjuntos habitacionais da COHAB da zona leste. “Isso foi entre 2005 e 2007, quando circulamos por 18 conjuntos”, diz Adailton, e conclui: “Além das peças, também já montamos oficinas nos moldes das que nos formamos. Replicar a maneira que isso surge é interessante. Trabalhamos em cima de três pontos: a pessoa ter acesso, experimentar o teatro e, pra fechar, criar condições de continuar nele.” Com pouco mais de 10 anos de existência, o grupo já conta com oito peças no currículo e está longe de se acomodar.

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