Por: Maurício Pestana

Porto Seguro, na Bahia, é uma das cidades mais belas do Brasil e traz peculiaridades muito além de suas praias maravilhosas e de sua beleza natural que encanta turistas do mundo inteiro. Sua diversidade étnica faz com que negros, índios, italianos, alemães, argentinos e pessoas de quase todo o Brasil, que fizeram do local o seu lar, convivam em uma área territorial bastante restrita. Neste caldeirão étnico racial, problemas seculares como discriminação e exclusão social tomam um volume assustador. Hoje, o cargo de coordenador do Centro de Cultura de Porto Seguro, inaugurado em 1986 é ocupado pela primeira vez na história por uma mulher negra, a carioca Mirian Silva, que nos conta um pouco da experiência que é estar à frente de um espaço público, em uma cidade tão diversificada e complexa em sua composição étnica e cultural

Quando chegou a Porto Seguro, como a questão do negro era tratada?

Tenho que dizer sob a minha ótica, uma mulher negra do Rio de Janeiro que no ano de 1978, na Cinelândia, tinha uma militância ativa no movimento negro. Depois que me casei, fui morar no pequeno povoado de Santo André, vizinho a Porto Seguro. Lá não tinha cor, ótimo porque você é apenas ser humano. Quando cheguei a Porto Seguro, comecei a encontrar dificuldades. Meu marido foi trabalhar na cidade e minha filha estudar em escolas particulares. Ela chegava em casa e dizia: “Mãe, estão me chamando de carvão vegetal”. Essa discriminação racial me impulsionou a voltar à militância que havia deixado no Rio no final dos anos setenta quando fazia parte do Movimento Negro Unificado (MNU).

Profissionalmente, como estava sua vida neste período?

Era  assessora de um secretário em Arraial d’Juda que, na ocasião, já era é um lugar totalmente elitista, com um apartheid gigantesco. Lá tem a estrada do Mucoge o bairro onde moram os funcionários e os dos donos das pousadas. Minha filha estudava lá em uma escolinha particular, lógico, por conta das condições minha e de meu marido. Ela me perguntou o motivo de as pessoas a chamarem de carvão vegetal. Claro que era por ele ser negra. Fiquei com muita raiva e falei com o meu secretário: “Vou fazer um movimento para expor essa segregação! Posso fazer um movimento em prol da promoção da igualdade racial como está acontecendo em outras partes do Brasil? Ele respondeu positivamente e eu não perdi tempo.

Qual foi o seu primeiro passo?

Criei o Conselho de Igualdade Racial e como ninguém até então havia tomado uma atitude relacionada à questão racial, achei que iria pregar no deserto, não sabia que a comunidade negra da cidade só estava esperando alguém para gritar isso. Eu dei o grito inicial e pedi licença para a presidente da OAB, Ema Allas: “Eu posso fazer uma reunião aqui para a comunidade negra discutir a questão racial?”. Ela foi super gentil e cedeu o espaço. Fiz todo um movimento na rádio, jornais e todos os veículos de publicidade. Chegou muita gente. As pessoas chegaram e ficaram quietas, porque é Porto Seguro, um ambiente de branco (estrangeiro) e indígena. Nós abrimos um leque para os negros, e agora todos estão se reconhecendo no próprio espelho que seguiam, mas não se viam.

Branco que você diz são argentinos, italianos, alemães, donos do comércio? O que é ser branco em Porto Seguro?

É justamente isso. São esses europeus que chegaram aqui com a grana, compram tudo e hoje dominam o comércio. Primeiro os portugueses, que chegaram e “terra à vista”. Depois italianos, alemães, seguidos dos franceses. Esses são os que dominam Porto Seguro, aí tem toda essa força deles no comércio. Mas não podemos esquecer que são eles também que dão empregos e tudo mais, inclusive a força na geração da economia local.

Fale um pouco do cargo que você ocupa como coordenadora do Centro de Cultura de Porto Seguro.

É um espaço do governo do Estado relacionado à questão cultural. Estou trabalhando aqui como coordenadora de cultura e dirijo um equipamento público no intuito de desenvolver atividades culturais na cidade, que tem uma diversidade muito rica na sua composição.

Em Porto Seguro acontecem muitas atividades culturais, exposições e tem um amplo teatro. Como é a utilização deste espaço e como se dão as atividades relacionadas à cultura negra?

Como disse este espaço é do Estado e foi utilizado por muitos anos com critérios apenas políticos, não culturais. Acontecia de tudo aqui, até manifestações religiosas. Tive um trabalho danado para mudar a concepção deste local e do cargo, fazer com que as pessoas entendessem que aqui é um espaço da cultura e não da política eleitoreira. Hoje, abro as portas para pessoas que nunca entravam aqui, que não eram convidadas a entrar. Estou abrindo para a cultura popular, para a cultura indígena, muito forte e presente em nosso município. E claro, também para a cultura afro.

Sendo administrado por um prefeito de partido diferente do governo do Estado, não há conflito na área cultural por espaços e competências?

Eu me relaciono bem, embora o meu partido seja diferente do que administra a cidade, mas eu não falo em política, até porque o meu cargo não permite, mas o município está tentando ocupar este espaço e depois municipalizar. É um espaço público e eu tenho que fazer girar a cultura de uma forma democrática. Não posso ocupar todas as salas para o município, tenho que ocupar as salas para entidades. Tem a capoeira, a dança afro e o balé, que não têm nada a ver com o município, e tem a orquestra sinfônica que é um projeto municipal.

A presença de negros na cidade e no estado da Bahia é muito grande. Antes de você, esse cargo já havia sido ocupado por algum outro negro?

Não, nunca! É a primeira vez, por isso muitas situações engraçadas e também constrangedoras acabam ocorrendo comigo, uma vez que nosso município, como disse é muito diverso racialmente e a presença do negro em cargos de direção é praticamente inexistente.

Você pode descrever alguma dessas situações?

Sou muito procurada aqui por artistas e produtores de diversas áreas artísticas. Normalmente atendo a todos e, inicialmente, quase sempre por e-mail ou telefone, enfim por uma comunicação que não é pessoal. Quando marcamos reunião, a pessoa chega aqui e se depara com uma coordenadora negra de trança e que faz questão de se portar como tal. Eles se assustam, aliás, melhor dizendo, ficam meio indignados: “Ué, você é negra?”. Aí eu falo: “Sou negra sim, mas estávamos falando no telefone e éramos iguais, agora somos diferentes por que eu sou negra? Aí vem: “Não, desculpa, não tem problema, é que eu não esperava”.

Soube que este centro cultural até sua entrada era muito usado como espaço religioso de uma única vertente. Como administrou esta demanda?

Neste espaço tenho que me manter neutra, porém, no momento em que eu entrei aqui, coincidentemente, o Estado enviou uma circular dizendo que as dezoito coordenações culturais existentes na Bahia, inclusive está sob minha responsabilidade, não mais aceitassem encontros de cunho religioso. O espaço aqui era muito utilizado por uma entidade espírita. Tive que proibir uma prática e foi o primeiro e grande desafio que encontrei no cargo.

Desafio em que sentido?

Aqui tinha um centro espírita há 12 anos. Logo quando entra a primeira gestora negra, tenho que dizer que acabou, e segurar a batata, dizer que não pode mais. O município inteiro ficou contra mim. Mas graças a Deus, na religião espírita, no candomblé, na religião evangélica, tenho muitos amigos, falei que não era uma decisão minha e, sim, uma decisão do estado. Não é só com relação ao espiritismo e sim com todas as entidades. Não podemos ter manifestações de cunho religioso num espaço cultural. Chegaram até a acionar a polícia, mas no final tudo foi resolvido.

Você disse que existem 18 espaços como este na Bahia. Quantos têm coordenadores negros?

Somente quatro. Tem em Juazeiro, tem também na região dos Alagados, que é uma negra maravilhosa, super bacana. Ela entrou agora e faz um trabalho lindo lá. São a Ana Valesca, Cátia Costa, eu e o de Juazeiro.

Em termos de população, qual o percentual de negros em Porto Seguro?

Não posso te dizer com precisão, mas possivelmente seja mais da metade da população. Estamos em todas as partes, até por conta da nossa história econômica e social. No sul do Estado tivemos o momento do cacau, que era ouro aqui na região. Se você for ver Belmonte, cidade estratégica neste período, vai ver uma riqueza arquitetônica incrível. Mas só que Belmonte agora virou nada. Mas voltando aos negros, muitos vieram das lavouras de Ilhéus e de outras partes para Porto Seguro, uma cidade turística. Normalmente chegam aqui no período de dezembro, janeiro e fevereiro, ganham dinheiro trabalhando nas pousadas como pedreiros e garçons. Eles acabam ficando, ocupam um terreno baldio e fazem o seu barraco, depois vira uma favela e aquela coisa que o município não comporta. Eu diria que aqui é a reprodução do que tem acontecido historicamente com o nosso povo.

Ouvi falar que no bairro do Baianão, local muito distante e de muita exclusão, a maioria é negra.

O Baianão tem aproximadamente 45 mil habitantes, a maioria é negra. Mas lá dentro eu não consegui chegar. Estou agora vizinha ao Baianão, que é o bairro do Combolo. E este bairro eu sei que tem uma influência africana muito forte. Mas o baianão, como massa, é onde tem mais jovens negros morrendo e onde a criminalidade está. É muito difícil o poder público adentrar. Chega uma certa hora que lá tem toque de recolher, igual a alguns bairros no Rio de Janeiro e em outras periferias de grandes cidades. O Baianão é onde eu gostaria de fincar a minha bandeira e, se possível, fazer um trabalho social e cultural lá.

Pelo que você me diz então, há um apartheid entre estrangeiros, brancos e negros?

Sim, há um apartheid, realmente, só que não é apenas com relação aos estrangeiros. Também quando chega aqui pessoas de “boa família”, que vêm principalmente de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, sentimos que ficamos meio invisíveis a esses olhares. Sabe quando você fica invisível e não pode nem dizer que é negro? “Ah, eu sou moreno!” Até mesmo pessoas que a gente convive dizem: “A Mirian, aquela morena” ou então: “Ah aquele moreno. Então, eles têm problemas em falar a palavra negro. Nosso trabalho agora é dizer que tem negros, brancos e amarelos e que deveriam ser tratados igualmente por todos aqui e não passarem como invisíveis, inclusive ao olhar do poder público.

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