Um dos nomes mais valiosos do nosso samba-rock, Luis Vagner concedeu entrevista à Revista Raça, veja alguns trechos

 

TEXTO: Daniel Keny | FOTOS: Agnaldo Rocha/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Luis Vagner, o Guitarrista | FOTO: Agnaldo Rocha/Divulgação

Luis Vagner, o Guitarrista | FOTO: Agnaldo Rocha/Divulgação

Nada me tira da cabeça que os eventos mais malucos da vida acontecem de forma inesperada. Quando somos pegos de surpresa por uma situação que foge da lógica, a reação é espontânea e não permite pré-julgamentos. E assim defino o meu encontro com Luis Vagner, o Guitarreiro. Antes da entrevista com o cara que ajudou a desenvolver o samba-rock e foi um dos desbravadores do reggae no Brasil, fui convidado por ele e seu produtor, Luiz Eduardo, a participar de uma oração budista, religião do músico há mais de vinte anos. Apesar de ser pego de surpresa, aceitei de coração aberto, movido pela sinceridade do gesto e porque senti que deveria. Não me arrependi. Ao final da noite, tinha conhecido pessoas de astral contagiante e entrevistado um artista na essência da palavra, daqueles que fazem música por amor e, como recompensa, conseguem dela o seu sustento. Luis Vagner rememorou sua trajetória artística de forma intensa, falou sobre fama, reconhecimento e revelou seus novos projetos. O gaúcho de Bagé não escondeu o amor que sente pelo Sul. Afinal, foi lá que, ao lado do pai, maestro da orquestra Copacabana Serenaders, aprendeu a apreciar e produzir música. Jazz, samba, choro e gêneros locais foram as primeiras influências do Guitarreiro, mas foi a chegada do rock, no final dos anos 1950, que despertou sua paixão pela guitarra elétrica.

Já em Porto Alegre, montou com amigos o grupo The Jetsons, que tocava em festas e acompanhava cantores na capital gaúcha. Rebatizada como Os Brasas, a banda migrou para São Paulo e fez parte da Jovem Guarda, lançando seu único LP em 1968, com diversas composições de Luis Vagner e seu então parceiro criativo, Tom Gomes.

A partir dos anos 1970, o Guitarreiro seguiu carreira solo e encontrou espaço para explorar novas sonoridades. Foi misturando rock, soul e samba que ficou marcado como um dos precursores do suingue, também chamado de sambalanço e samba-rock. Na década de 80, se aproximou do reggae, inspirado pelo som dos Wailers, banda de Bob Marley, Peter Tosh e dos irmãos Carlton e Aston Barrett. Usando toda essa experiência, e com o seu jeito inconfundível de tocar guitarra, Luis Vagner acaba de lançar o EP “Samba, Rock, Reggae, Ritmos em Blues e Outras Milongas Mais”, com seis faixas inéditas. Confira o que contou à Raça o músico que é de audição obrigatória para quem deseja conhecer mais sobre o nosso genuíno samba-rock!

Veja trechos da entrevista com Luis Vagner, o Guitarreiro

Quando você começou a se interessar por música?

Eu nasci em uma família de músicos. Meu pai era saxofonista, clarinetista e violinista clássico, meu avô era fotógrafo, mas tocava flauta. Meu pai fazia parte de uma big band que tocava jazz, mambos e choro brasileiro, e foi em meio a essa gama de informação musical que eu, ainda menino, fiquei enlouquecido pela música. Eu senti como era fascinante fazer parte daquele universo de melodias, harmonias, poesias.

"A obra do músico é uma forma de mostrar às pessoas, com o coração limpo e de uma forma tocante, a evolução de um ser humano através das experiências vividas" | FOTO: Agnaldo Rocha/Divulgação

"A obra do músico é uma forma de mostrar às pessoas, com o coração limpo e de uma forma tocante, a evolução de um ser humano através das experiências vividas" | FOTO: Agnaldo Rocha/Divulgação

Existe alguma diferença entre o suingue do Sul do Brasil, estilo que você ajudou a desenvolver, o samba-rock paulista e o balanço carioca?

No Sul, tudo começou com Caco Velho e Bola Sete, que eram os caras da música rítmica brasileira. Meu pai era rádio telegrafista, trabalhava na Viação Férrea do Rio Grande do Sul, onde eu tinha passe livre. Eu gostava de ir lá pra ouvir o barulho dos trens, e aquela polirritmia me fazia viajar. Inconscientemente, aquele ruído, junto com a música gaúcha do “3 no 2” e o rock, definiram a minha pegada na guitarra, que é reconhecida por esse balanço. E essa expressão rítmica ficou marcada como o suingue lá do Sul. No Rio de Janeiro a onda era o sambalanço do Ed Lincoln, Jorge Ben Jor, Orlandivo. A grande diferença era o sotaque, mas aconteceu um hibridismo, a gente começou a tocar um com o outro e tudo virou uma coisa só, houve uma troca. Em São Paulo era mais a dança dos bailes com todo o repertório que a gente fazia. Depois, em São Paulo, veio uma gurizada nova, com Brancadi Neve, Dhema e outros.

Você é um músico que viveu e produziu num período de efervescência musical, ali nos anos 60 e 70. Você vê alguma diferença entre os artistas daquela época em relação às gerações posteriores, especificamente no modo de encarar o próprio trabalho e a fama?

Esse é o maior perigo que tem, porque fazer arte desvinculada do eterno, não é arte. Cada um faz o que quiser, todos têm o direito de querer ganhar o seu dinheiro, mas é preciso ter o desejo de tocar no coração e na alma das pessoas com sinceridade, independentemente de quanto se vai ganhar com isso. A gente vê cantores e grupos sumirem tão rápido quanto surgiram por não terem esse sentimento dentro de si. A obra do músico é uma forma de mostrar às pessoas, com o coração limpo e de uma forma tocante, a evolução de um ser humano através das experiências vividas. E o sucesso é relativo. Para mim, o sucesso que fiz quando gurizinho é o mesmo de agora. Por exemplo, uma vez eu estava andando na rua e uma senhora disse “olha lá o guri que toca guitarra”, e depois ela pediu pra eu ir buscar pão! Mas a emoção daquele encontro era porque ela me admirava, e quando eu cheguei com o pão, ela me serviu um café, me tratou com muito carinho e respeito, fez eu me sentir um verdadeiro artista. Agora é a mesma coisa. Quando encontro alguém que admira o meu trabalho e a minha essência, é tudo pra mim. É o momento em que todo o esforço para passar uma mensagem verdadeira é compreendido.

Vamos falar sobre um pouco sobre o budismo. A religião moldou o Luis Vagner de hoje? Dá pra relacionar suas crenças com a sua música?

Eu estou por aí desde os anos 60, fui hippie, black power, beatnik, rastafári. Lógico que sempre em busca da felicidade, do autoconhecimento para realizar tudo que preciso. Em 1987, encontrei o budismo e a minha vida se transformou para melhor um milhão de vezes. Cresci e amadureci muito, adquiri consciência definitiva sobre a vida. Acho que encontrei o “eu definitivo”. Me sinto muito satisfeito em hoje poder dizer que vivo também para ajudar as pessoas.

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