Saiba mais sobre as origens do racismo no futebol brasileiro

 

TEXTO: Ana Carolina | FOTO: Rafael Ribeiro/CBF | Adaptação web: David Pereira

A história do racismo no futebol brasileiro | FOTO: Rafael Ribeiro/CBF

A história do racismo no futebol brasileiro | FOTO: Rafael Ribeiro/CBF

 

Considerado hoje um dos esportes mais democráticos, o futebol volta e meia tem a reputação arranhada pelo preconceito racial. Infelizmente, esse preconceito tem raízes profundas na história da modalidade - no início do século passado, o acesso às quatro linhas do gramado era vetado a negros e mulatos.

Quando Charles Miller trouxe a primeira bola de futebol para o Brasil em 1894, o esporte logo desbancou o turfe e o remo como preferência nacional. Marcado por contradições sociais, conquistou brancos e negros. Enquanto os brancos construíam estádios e comemoravam o resultado das partidas com uísque, os negros improvisavam campos de várzea e bebiam cachaça após os jogos. “Os jogadores negros se apropriaram de uma cultura esportiva elitista, trazendo o jogo para as ruas, transformando-o por meio de uma nova linguagem corporal e criando um dos mais fortes elementos de identidade nacional”, explica Carlos Alberto Figueiredo da Silva, autor do livro “Racismo no futebol”.

Em algumas cidades, os negros, impedidos de disputar os torneios, criaram suas próprias ligas. Entre os anos 1920 e 1930, São Paulo chegou a contar com 12 clubes disputando o campeonato informal. No entanto, havia uma vez no ano em que os melhores jogadores de cada liga se encontravam. Entre 1927 e 1939, sempre no dia 13 de maio — quando é comemorada a abolição da escravatura — ocorria o clássico “preto x branco”. Um fato curioso é que o negro Arthur Friendenrich, considerado o melhor jogador brasileiro antes de Pelé, chegou a participar do desafio, mas vestindo a camisa dos brancos.

Criador do escudo do Corinthians e jogador do time entre 1922 e 1927, o artista plástico Francisco Rebolo, em depoimento ao sociólogo Antônio Gonçalves, condenou o preconceito contra os negros: “Eu me recordo de que no Corinthians surgiu um mulato chamado Tatu, que jogava muita bola, era um craque. Certa vez, num jogo entre Corinthians e Paulistano, o Tatu marcou o gol da vitória. A cidade ficou tomada, com gente fazendo discurso, já foi uma vitória do povão”.

No Rio de Janeiro, graças à proximidade entre asfalto e morros, que o futebol começou a se democratizar. Claro que a integração entre brancos e negros não foi aprovada pela sociedade racista. Quando o Vasco tentou disputar a primeira divisão carioca, em 1924, a associação futebolística condicionou sua participação na liga à retirada de doze negros e mulatos de seu time. O Vasco se recusou a cumprir a medida e preferiu competir entre os times pequenos.

A partir dos anos 1930, com a profissionalização do futebol, houve uma percepção do talento dos negros e, aos poucos, eles ganharam espaço nos grandes clubes. O preconceito, no entanto, nunca foi totalmente erradicado da sociedade e voltou a ganhar força nas arquibancadas nas últimas décadas. Para ele, os recentes casos de preconceito contra jogadores revelam um aumento de tensão na sociedade. “Quando a tensão social aumenta, há um fenômeno recorrente: a busca por um bode expiatório. Isto não é diferente no futebol. Na Europa, as manifestações de preconceito têm se intensificado em virtude das tensões no mercado de trabalho, moradia, desigualdade etc. Isto chegou ao Brasil e a outros países da América, pois estamos num momento de ansiedade e de crise. A sociedade deve buscar punir os infratores, mas o que se vê é a punição aos clubes, aos estádios, ou seja, estamos no vazio. A polícia tem de ter mecanismos para apurar os delitos”, ponderou.

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