Saiba mais sobre a história e a música do compositor Assis Valente

 

TEXTO e Ilustração: Leandro Valquer | Adaptação web: David Pereira

Assis Valente | Ilustração: Leandro Valquer

Assis Valente | Ilustração: Leandro Valquer

O baiano Assis Valente nasceu em 19 de março de 1911. Teve uma infância pobre e caótica, agravada pelo fato de ter sido roubado de sua família aos seis anos de idade, por um certo Laurindo, alegando “ser injusto um menino tão perspicaz viver em ambiente tão pobre”. Assim, Laurindo o levou para Alagoinha, junto a tal família Canna Brasil. Lá, trabalhou como um condenado, era tratado como empregado da família vivendo em condição semi-escrava. A vantagem depois do trabalho era poder estudar à noite, coisa que ele gostava muito e poucos meninos na sua situação podiam fazer. E foi o estudo que salvou Assis em vários episódios de sua vida.

A família resolveu, então, mudar-se para Salvador. Graças a intervenção do avô adotivo, Assis Valente acompanhou a viagem à capital do Estado com a condição de que lá andasse com as próprias pernas, pois logo a família partiria rumo ao Rio de Janeiro. O menino sustentou-se como lavador de frascos no hospital Santa Isabel. Sua aguda perspicácia chamou a atenção de Padre Tolentino, que levou o rapaz para a cidade de Bonfim, empregando-o na farmácia do hospital da cidade. Assis foi convidado a declamar versos na quermesse do hospital. Ele, como bom baiano e poeta, herdou coisas de Gregório de Mattos, Guerra Junqueiro e Castro Alves. Foi declamar poesia na quermesse, porém, uns versinhos anticlericais no maior país católico do mundo. A glória do emprego durou pouco...

Mas passava pela cidade o Circo Brasileiro e, em uma brecha das apresentações, Assis Valente ocupou o picadeiro e declamou poemas de sua lavra, que lhe renderam contrato como orador e comediante do circo. Excursionou durante um ano pelas cidades interioranas da Bahia. Logo retornou a Salvador, onde trabalhou como farmacêutico. À noite estudava no Liceu, onde iniciou-se na arte do desenho, além de tornar-se especialista em prótese dentária. Sentia que a sorte estava mais ao sul. Foi ao Rio e, vivendo como protético, modelou o sorriso do povo. Continuou estudando desenho e paralelamente, ilustrando algumas revistas como Shimmy e Fon-Fon.

Na década de 30 o rádio no Brasil estava em alta. Cortejando a música popular brasileira, ouvia-se sucessos como a racista marchinha O teu cabelo, de Lamartine Babo, Noite cheia de estrelas, de Candido das Neves, Para me Livrar do Mal, de Noel Rosa, entre outras pérolas. Heitor dos Prazeres foi um dos primeiros a reconhecer a nobre musicalidade de Assis. Aracy Cortes, a primeira a gravar seu samba Tem Francesa no Morro, em 1932. Em seguida, Moreira da Silva gravou um 78 rotações com duas músicas de sua autoria: a marcha Pra Lá de Boa e o samba Oi, Maria.

Nesse mesmo ano conheceu Carmen Miranda, a que viria a ser sua principal intérprete. Apaixonou-se por ela em todos os sentidos. Em 1933, Carmen gravou Good bye Boy, sátira à pequena burguesia que começava naquela época a adotar costumes e chavões norte-americanos. Na mosca! A produção de Assis Valente nessa época foi tão profícua que ele chegou a compor quase que uma música por dia. Era o ano de Assis Valente. Sua situação financeira começou a mudar e ele passou a frequentar ambientes elitizados, usando ternos caríssimos, esbanjando paródia, dinheiro, principalmente amores e elegância.

Lançou em 1938 o samba–choro Camisa Listrada, que muitos consideram sua obra-prima: “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí / Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati /Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão / E sorria quando o povo dizia: Sossega leão, sossega leão...”. Em 1939, casou-se com a datilógrafa Nadyle, união que durou até 1941. A percepção de que sua ascensão chegara ao fim, desesperou Assis Valente. O casamento frustrado, a homossexualidade enrustida e uma grande desfeita de Carmen Miranda empurram Assis para uma situação limite. Sem perspectiva, atirou-se do Corcovado e, por sorte, acabou ficando enroscado num galho de árvore a 70 metros de altura. Essa desventura lhe rendeu o samba Fez Bobagem. Mas o sucesso não tirou Assis Valente do ostracismo. No final dos anos 40, avexado por um escândalo armado por Elvira Pagã (que lhe cobrara em público 4.000,00 Cruzeiros), Assis cometeu uma nova tentativa de suicídio, desta vez cortando os pulsos. Passou a morar no próprio laboratório de prótese dentária com os modestos recursos que recebia dos direitos autorais.

Início da década de 50. Assis adaptou-se às novas mudanças, retomou o fôlego e lutou intensamente contra o prejuízo. O Grupo Quatro Azes e Um Coringa fez sucesso com sua composição Boneca de Pano. Assis se animou, mas observou que grandes vozes não se interessaram mais por sua obra. Em 1956, a cantora Marlene gravou um disco só com obras de Assis Valente. Questionando a condenação ao ostracismo que os veículos de informação lhe imputaram, Assis vendeu a granel, nesta época, diversas composições de sua autoria que fizeram sucesso no nome de outros compositores.

Então, o samba entrou em declínio, as rádios privilegiavam músicas internacionais, em especial, americana. A política da boa vizinhança tornou-se invasão cultural. A formiga (Assis) polivalente já não via mais sentido no trabalho abstrato, no espaço onde tudo era mercadoria. Tomou sua última dose – de formicida com guaraná – em praça pública, diante do grande formigueiro que converteu tudo em mercadoria e trabalho sem sentido. Era o seu último (e sarcástico) atentado contra o mundo-mercado. A negação da negação. Era dia dez de Março de 1958.

 

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