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Cientistas e inventores negros

  • Autor: Carlos Machado

  • Publicado em: 23/01/2018

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Por acaso um negro já inventou alguma coisa? A escravização promovida pelos brancos cristãos foi fundamental neste processo de não acreditarmos no nosso potencial negro humano de produzir o novo. Mas mesmo diante da hegemonia branca, a nossa gente não deixou de inventar e inovar. A questão é que esta genialidade foi omitida e consequentemente não divulgada como deveria ser em uma sociedade que diz não ver a cor da pessoa e sim o mérito...

Vejamos o samba Ao Povo em Forma de Arte, composto por Nei Lopes e Wilson Moreira e interpretado por Martinho da Vila para a Escola de Samba Quilombo, em 1978:

“Em toda a cultura nacional
Na arte e até mesmo na ciência
O modo africano de viver
Exerceu grande influência”

Em minha pesquisa Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente, Nei Lopes é o primeiro pesquisador negro a publicar conteúdos sobre cientistas e inventores negros no Brasil, através do livro Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (2004). Na sua canção ele diz maravilhado “até mesmo na ciência” como algo espantoso dos feitos dos ancestrais africanos. Mas esta surpresa vem de onde? De um sistema educacional eurocêntrico (da educação infantil até à universidade) que não valoriza a capacidade cognitiva da criança, jovem e adulto negro e torce pelo seu fracasso escolar. No imaginário coletivo a imagem de gente bem sucedida na ciência está reservada ao amarelo (japonês, coreano e chinês) e em segundo lugar para o branco, não tendo espaço para o negro. Esta visão está ancorada na visão dos racistas científicos europeus famosos desde o século 18, como Carl Linnaeus, Voltaire, Hegel, Schopenhauer, Auguste Comte, David Hume, Charles Darwin entre outros. O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo, presença obrigatória nos currículos dos cursos de filosofia e livros no Brasil e no mundo a fora, na sua obra Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime, de 1764, diz que:

Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um Negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes.

Como contraponto a esta visão kantiana, temos o relato do filósofo iluminista francês Conde Constantine de Volney (1757-1820), que no livro The Ruins or, Meditation on the Revolutions of Empires: And The Law of Nature (As Ruínas ou, Meditação sobre as Revoluções dos Impérios: E a Lei da Natureza – sem edição em português), após a invasão ao Egito, em 1787, escreveu:

Basta pensar que essa raça de homens negros, hoje nossos escravos e objeto de nosso desprezo, é a mesma raça à qual devemos nossas artes, ciências e até mesmo o uso do discurso! Imaginem que estamos no meio de pessoas que se dizem os maiores amigos da liberdade e da humanidade e que aprovaram a escravidão mais bárbara e questionando se os homens negros têm o mesmo tipo de inteligência que os brancos.

 

Existem invenções de pesquisadoras negras e negros em 100 países, com mais de 15.000 patentes das mais triviais às de alta complexidade. Apresento uma gama de contribuições intelectuais, incluindo invenções negras para o cotidiano tais como: geladeira, batedeira de ovos, cortador de grama, papel, escova de cabelo, lavatório para cabelos de salão de beleza, galochas, cadeado, bomba de inseticida, tampas para garrafas, cadeira dobrável, carrinho de bebê, colher de sorvete, espremedor de limão, pilão, lampião, caneta tinteiro, elevador, pá de lixo, tábua de passar roupa, esfregão, rolo para massa, carimbo, irrigador de grama, triciclo, sanitário, extintor de incêndio, ar condicionado, secadora de roupas, câmbio manual e automático, vela de ignição, bonde, calculadora, óculos de proteção, óculos 3D, semáforo, trem elétrico, telefone, telefone celular, controle remoto, microfone, estetoscópio, máquina de escrever, guitarra, vídeo game, microchip de computador, disquetes e muito mais.

O nosso legado está presente nos campos da ciência, tecnologia e inovação em diversas áreas do conhecimento como Educação, Astronomia, Matemática, Metalurgia, Farmacologia, Medicina, Agricultura, Pecuária, Botânica, Zoologia, Têxteis, Engenharia Naval, Arquitetura e Urbanismo, Comunicações, Defesa, Comércio, Direito, Química, Física, Aviação, Engenharia Aeroespacial, Arquitetura, Psicologia, Psicanálise e Informática.

Os africanos e seus descendentes sempre criaram soluções para facilitar sua vida e da coletividade, mas a escravidão islâmica e cristã a partir do século 10 D.C. alterou esta percepção. Foi criada a ideia de “raça” e neste conceito os chamados “negros” ou “zanj” só tinham a função de serem explorados. Estas conquistas do passado e presente ficaram invisibilizadas pelo racismo e apenas a inventividade dos brancos foi valorizada, tanto que inexiste no imaginário social invenções de mulheres e homens negros, criando uma noção de que esta “raça” não possuem capacidade inventiva e suas habilidades se encontram apenas em áreas como esporte, música e entretenimento.  Vamos descolonizar nossas mentes!

Carlos Machado/ Gyasi Kweisi

Historiador e Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo Professor da SME-PMSP, Autor do livro Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente. É ex-bolsista da Ford Foundation (USA), articulista e palestrante.

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