Leia a entrevista com Dayse Porto que faz um estudo semiótico sobre a identidade afro-baiana de Ó pai, Ó

 

TEXTO: Maitê Freitas | FOTOS: Alex Oliveira/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Lázaro Ramos e Wagner Moura em cena de "Ó, Pai, ó" | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

Lázaro Ramos e Wagner Moura em cena de "Ó, Pai, ó" | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

Saiba mais sobre a tese de mestrado de Dayse Porto sobre a identidade afro-baiana construída em Ó pai, Ó.

Veja a entrevista:

De que forma “Ó Pai, Ó” rompe com o imaginário baiano construído na obra de Jorge Amado e Dorival Caymmi?

Parte do universo imaginário sobre a Bahia nasce de interpretações das obras de Amado e de Caymmi, criadas principalmente entre as décadas de 30 e 50, quando as grandes cidades e a própria Salvador nem de longe eram o que são em termos de urbanização. Costuma-se pensar numa Bahia cordial, sensual, colorida, na fartura de comidas típicas, nas festas, na relação com a natureza, no pescador que pára para observar o mar sem as atribulações de uma vida urbana. A obra desses dois autores é magnânima, de uma sensibilidade fora do comum, são dois grandes artistas, muito cultos, que com simplicidade olham a beleza de sua gente, em lugares específicos, em seu tempo. Os discursos mudaram, surgiram determinadas abordagens e denúncias. A relação com o turismo apareceu - os protagonistas vivem dele e apesar dele. Mas eu não enxergo como uma ruptura, vejo como uma expressão diferenciada, atualizada e com muitos pontos de convergência. O Pelourinho continua colorido, embora se espanque moradores de rua; os personagens são apresentados como musicais e festivos, mas fazer música é também coisa séria, é trabalho, usado como meio de expressão inclusive do sofrimento da comunidade. “Ó Paí, Ó” é uma abordagem contemporânea e independente que se relaciona com outras citações à Bahia e vem somar no sentido da diversidade de representações.

As personagens tratam de diversas questões, entre elas o abandono social e afetivo. Como a construção narrativa aborda esse tema?

O social permeia a questão maior das duas temporadas,que é o acesso à moradia digna. Os protagonistas vivem em condições precárias, cada núcleo familiar ocupa um cômodo de um casarão deteriorado no Pelourinho. Essas questões políticas permeiam a série, mas não dão conta dela. Não há um discurso panfletário, há muitos outros conflitos pessoais, emocionais, de amor, traição, vingança, sonhos, família... Conflitos humanos e universais. E é uma comédia, o tratamento é muito leve, escrachado. Essa capacidade de fluidez, de não polarizar as questões, poder rir e falar de coisa séria ao mesmo tempo tem a ver com uma perspectiva da nossa cultura que gosto muito de observar, das heranças orais que recebemos, que quebram com as dualidades de bem e do mal, material e espiritual, e sobre a qual se referem autores como Eduardo Viveiros de Castro, entre outros.

Como o seriado contribui para uma construção não estereotipada do negro?

“Ó Paí, Ó” fala sobre o cotidiano de um grupo de pessoas negras moradoras de um cortiço no centro histórico de Salvador. O fato de serem esses os protagonistas, por si só é uma quebra na tendência temática da teledramaturgia brasileira. A agressão física contra afrodescendentes, inclusive por parte dos policiais, é mostrada num número considerável de cenas. Pequenas situações, conflitos e falas tratam da questão do racismo sem medo. Os personagens são marginalizados e conscientes em relação a isso. São sujeitos, atuantes, reagem, organizam-se e conseguem algumas conquistas, isso sem falar na afirmação estética da negritude, isso também é muito presente. Uma das coisas que me inquietava antes de começar a pesquisa, era que ouvia pessoas comentarem que “Ó Paí, Ó” fazia uma representação estereotipada da Bahia. Talvez essa noção venha do fato da série revisitar elementos recorrentes como o Pelourinho, as cores quentes, os dias solares, as comidas típicas, a dança, a sensualidade, a musicalidade, a religião etc. É claro que no universo da terceira capital mais populosa do país, o contexto vivido por baianos, em sua maioria negros, é imensamente mais amplo que esse. Mas o que observo é que a série traz esse recorte para efeito de ironia e crítica. Isso a série faz muito bem. É um produto televisivo, de comédia, e a linguagem é cômica, farsesca, com escracho, com exageros, como é próprio do gênero. Você pode ser o público disso ou não, pode rejeitar esse tipo de série, pode discutir muitas abordagens, mas eu cheguei à conclusão de que quem diz que a série “Ó Paí, Ó” simplesmente reforça estereótipo não sentou para assistir nenhum episódio do início ao fim. É aquela coisa do “não vi e não gostei”.

Roteirista, pesquisadora e comunicadora social Dayse Porto | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

Roteirista, pesquisadora e comunicadora social Dayse Porto | FOTO: Alex Oliveira/Divulgação

O fato de ser interpretado por atores baianos diminuiu ou excluiu a tendência aos estereótipos e ao senso comum?

Acho que sim, diminuiu, e isso tem também muito a ver com a história do texto. “Ó Paí, Ó” é originalmente uma peça de teatro, composta e encenada pela primeira vez em 1992, em Salvador, pelo Bando de Teatro Olodum, um grupo ligado ao bloco afro Olodum. Um dos principais temas era o extermínio de crianças moradoras do Pelourinho. Os atores da companhia são negros e têm no currículo montagens posteriores como “Cabaré da Raça”, que fez história nas discussões sobre preconceito racial em Salvador. O processo de criação de “Ó Paí, Ó” foi coletivo, liderado pelo diretor Marcio Meirelles, com a participação de todos os atores. A vivência dos artistas, baianos, moradores de Salvador, afrodescendentes, muitos deles de bairros populares, e a observação, o trabalho de campo sobre a realidade do Pelourinho com a qual conviviam todos os dias, resultou na leitura de “Ó Paí, Ó”. Tudo isso por meio de um tipo de comicidade muito próprio à cultura oral baiana.

O seriado é também uma crítica ao estado de abandono histórico de Salvador?

Um dos principais temas da peça “Ó Paí, Ó” é o assassinato de crianças nas imediações do Pelourinho, meninos negros e pobres, e isso também está no filme, embora tenha saído da série. Mais ou menos na época da primeira montagem da peça, foi anunciada a famosa reforma do Pelourinho, e o Bando de Teatro discutiu em espetáculos posteriores como “Bai Bai Pelô” o modelo do projeto, que priorizava ações comerciais turísticas e desapropriava os antigos moradores, por exemplo. O seriado, montado cerca de 15 anos depois, é inspirado na trilogia de peças do Bando sobre o Pelourinho e na crítica ao modo de gestão habitacional, de uma forma mais leve, entretanto. Isso abre e fecha os conflitos da primeira e segunda temporadas. Como cidadã, percebo que a cidade vem tendo imensos problemas nos últimos anos e há um processo de baixa estima por parte dos próprios moradores, o que eu acho muito triste. Eu sou muito apaixonada por aquele lugar, por sua alma, pela potência de sua gente. O talento para a resistência e para a reinvenção não morreu, apesar de todos os pesares.

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