Confira a segunda parte da matéria especial sobre a cracolândia

 

TEXTO: Renato Bazan | FOTOS: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock | Adaptação web: David Pereira

Cerca de 1 milhão de usuários do crack estão espalhados pelo Brasil  | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Cerca de 1 milhão de usuários do crack estão espalhados pelo Brasil | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Leia a primeira parte da matéria.

A total derrota do poder público em conter o avanço do crack castiga com mais rigor os segmentos mais fragilizados da população brasileira. Apesar de atingir todos os filões da sociedade, o perfil do usuário do crack no Brasil é o da pessoa que, querendo fazer uso de drogas, pode apenas pagar a mais baixa das tarifas de abalo neurológico. Esses são, em maioria, negros, pobres, com baixa escolaridade e habitantes das periferias do país. Os migrantes, em particular, são presas fáceis para a droga, assim como os ex-presidiários - no último levantamento da prefeitura paulista, descobriu-se que ao menos 70% de todos os frequentadores dos bolsões do crack foram aprisionados em algum momento de suas vidas.

Por contraditório que pareça, a maioria dessas pessoas ingressa na vida do crack por uma forte necessidade de pertencimento. Desprovidos de tudo, os habitantes das cracolândias encontram em seus bandos um território de aceitação, como se fossem uma sociedade alternativa. Dentro dessas bolhas, eles constroem identidades, laços, regras e hierarquias, e o crack se torna o elo central de todas as relações. Em um mundo de rejeição, as cracolândias são o último bastião de humanidade para seus participantes. A droga é uma consequência do desemprego e da miséria, e não a causa.

O médico psiquiatra Luís Fernando Tófoli reduz o paradoxo da cracolândia a uma pergunta central, que ganha adeptos entre os estudiosos do combate às drogas: “Os usuários não são zumbis. Afinal, a epidemia é de crack ou de abandono social?”.

Entre acolher ou espantar, a discussão sobre o melhor modo de combater o crack ainda está longe de encontrar um consenso. De um lado, aqueles que defendem uma atitude legalista exaltam o uso da força policial contra as aglomerações de viciados, enquanto do outro lado a tentativa é a de livrar os usuários da droga por meio de uma aproximação humana, com ONGs humanitárias. Há quem enfatize o atendimento de crianças de rua, como o Projeto Quixote ou a Travessia, ou a proteção das profissionais de sexo contra DSTs, como faz o GMEL (Grupo Mulher, Ética e Libertação). Alguns grupos preferem atuar na redução de danos à região, como o centro de convivência É de Lei. Por fim, algumas organizações religiosas buscam redimir os participantes das cracolândias com atos de fé, como faz a CENA (Comunidade Evangélica Nova Aurora), a PMM (Pastoral da Mulher Marginalizada) ou a Igreja Batista.

Epidemia de crack ou abandono social? | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Epidemia de crack ou abandono social? | FOTO: Marcelo Camargo-Agência Brasil/Shutterstock

Dentre todas essas opções, no entanto, é notável que a da violência pareça ter arrefecido depois de seu pico, na infame “Operação Cracolândia”, capitaneada pelo Governo do Estado de São Paulo. Na ocasião, em 2012, uma truculenta operação de combate ao tráfico levou para a cadeia 191 pessoas, carregando um total de 63 toneladas de drogas (apenas 3,5 de crack), e internou compulsoriamente 155 usuários. Tudo aconteceu ao longo de apenas um mês, causando arrepios nas organizações de defesa dos Direitos Humanos ao redor do mundo. Desde então, a chuva de críticas do setor acadêmico e uma constante observação da ineficiência daquelas táticas realinhou os esforços do governo de São Paulo para uma abordagem mais pacífica, baseada no convencimento dos dependentes químicos a se internarem em clínicas de tratamento distribuídas pelo estado. O programa de reinserção social ensaiado agora, nomeado “Recomeço”, começou no final de 2013, e agrupa clínicas especializadas, semi-UTIs, espaços culturais, esportivos, e para as famílias dos dependentes em algumas cidades do interior, na tentativa de afastar o usuário do apelo emocional do crack. Apesar de custoso, o governo de São Paulo afirma oferecer três mil leitos para esse tipo de tratamento atualmente.

Mas se o governo paulista parece ter abandonado o cassetete na hora de lidar com os usuários de crack, o mesmo não pode ser dito do Rio de Janeiro. Walmyr Júnior, historiador e morador do conjunto de favelas da Maré, escreveu em junho ao portal Brasil 247: “O Rio tem como referência de atuação deter e prender os dependentes químicos e higienizar os espaços públicos por eles usados. Além de não conseguir reinserir esse indivíduo em uma dinâmica social, nosso saudoso prefeito do Rio não programa nenhuma intervenção que possa mudar o cenário que vemos todos os dias”. Para o historiador, a atuação teria um caráter meramente higienista - crítica também observada na atitude da prefeitura de Salvador, que em 2014 passou a expulsar para a Cidade Baixa os usuários de crack que apareceram na cidade.

Confira o trecho final da reportagem.

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