2021- Vida que segue ou nada de novo no front.

Zulu Araujojaneiro 6, 20217 min
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A impressão que tive até agora é de que 2020 se recusa a ir embora. Apesar de todas as orações, ebós e meditações, pulos nas ondas, roupas brancas e aglomerações, as coisas parecem continuar do mesmo jeito no Brasil. Ou seja, nada de novo no front. Sinal de que a luta continua e terá que ser cada vez mais forte se quisermos sobreviver a essa onda fascista que assola o país.

Nos primeiros dias do ano a polícia brasileira continua atirando no que viu e acertando no que não viu e as balas perdidas continuam achando e matando nossas crianças e trabalhadores nos becos e vielas das nossas cidades e quase sempre todos pretos. Aliás, nesse item parece ter havido uma piora. O cinismo padrão adotado pelas corporações militares por meio das notas protocolares para explicar os desmandos dos seus comandados chegou ao escarnio. Repete-se, sem mudar uma única vírgula, (“A Policia Militar não compactua com desvios de conduta de seus agentes e os policiais estão participando de programas de treinamento”) em todos os casos, por mais absurdas e mentirosas que sejam as versões dadas pelos policiais. A versão é sempre a mesma, agora corroboradas pelos seus respectivos Comandantes.

O Governo Federal está como barata tonta sem o Ministério da Saúde saber onde compra vacina e seringa ou quando começa ou termina a vacinação da população no país. Enquanto isso o Presidente da República continua desafiando o bom senso, a ciência e a dignidade humana com suas aglomerações propositais e o vírus surfa a sua segunda onda de forma trágica provocando dezenas de milhares de infectados e mortos.

A economia está em frangalhos e o término dos auxílios emergenciais tanto para trabalhadores quanto para as empresas, em particular as pequenas que são responsáveis pela maioria dos empregos no Brasil, indicam que em breve poderemos ter graves perturbações da ordem pública se não forem adotadas novas medidas para o atendimento de quase 70 milhões de brasileiros que não terão de onde tirarem seus sustentos. É o Brasil achando que Deus é brasileiro e que vai nos tirar desse atoleiro sem apresentar nenhuma conta.

Por tudo isto, volto a dizer, estamos por nossa própria conta e se não fizermos o nosso dever de casa para enterrar o ano velho ele irá nos assombrar de forma dramática nesse pseudo ano novo. Neste sentido, há sinais alentadores visualizados ainda em 2020 que indicam que há luz no fim do túnel. Duas iniciativas, uma privada e outra do legislativo demonstram que quando a lucidez emerge é possível encontrarmos caminhos e soluções para nossos problemas. Refiro-me ao Comitê Externo de Diversidade e Exclusão criado pelo Carrefour após o bárbaro assassinato do trabalhador negro João Alberto perpetrado por seguranças em suas dependências e que conta com a participação do editor da Revista Raça, Maurício Pestana, além de respeitáveis militantes do movimento negro brasileiro.

A segunda iniciativa foi a Comissão de Juristas negros criada pela Câmara dos Deputados, por meio do seu Presidente Rodrigo Maia, que visa apresentar no prazo de 120 dias, medidas e sugestões de combate ao racismo estrutural que tantas vítimas têm causado em nosso país. Comissão também composta pelo que tem de melhor no campo jurídico da militância negra brasileira, a exemplo da Dra. Dora Lúcia Lima Bertúlio, ex Procuradora Chefe da Fundação Palmares na minha gestão. 

São iniciativas concretas  que exigirão de todos, maturidade e firmeza, para dar o passo adiante, que em certa medida acompanha a Campanha internacional – “Vidas Negras Importam, no sentido de que é fundamental a incorporação de setores não negros na luta antirracista  em particular as instituições do Estado. Até porque de nada adianta para as vítimas do racismo, em particular a juventude negra, que está sendo exterminada, ficarmos apenas lamentando ou denunciando as barbaridades produzidas pelo racismo estrutural.  Precisamos de solução e pra já.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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