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A história da África por ela mesma

  • Autor: Redator

  • Publicado em: 16/10/2016

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Em sua coluna, Margareth Menezes aborda o fato de conhecermos a África apenas pelas informações trazidas pelos seus colonizadores

 

TEXTO: Margareth Menezes | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação | Adaptação web: David Pereira

Margareth Menezes e "A África por ela mesma" | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação
Margareth Menezes e "A África por ela mesma" | FOTO: Estúdio Gato Louco/Divulgação

Olá, gente! Há algum tempo, tive a oportunidade de presenciar uma palestra muito envolvente do escritor moçambicano Mia Couto. Foi um momento muito relevante em que ele falou sobre a influência do escritor baiano Jorge Amado na literatura contemporânea dos países de língua portuguesa.

Como sabemos, seis países da África têm o português como idioma oficial: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Além deles, na Ásia, Macau e Timor Leste, este último eu tive o prazer de conhecer, também têm o português entre as suas línguas mais faladas. Destes, creio que Angola e Cabo Verde sejam os com relação mais aberta com o Brasil. Foi muito legal saber que o trabalho de Jorge Amado, homem apaixonado pela Bahia matriz, estimulou a nova geração de escritores africanos a assumir a mistura das expressões idiomáticas e as novas palavras surgidas do encontro da língua portuguesa com os idiomas e dialetos africanos, e mais, com o jeito nativo coloquial.

Antes disso, as produções literárias desses países tinham que seguir a forma clássica do português antigo. Depois de Jorge Amado, houve um novo olhar sobre isso e muitos escritores da nova geração da afro-lusofonia vislumbraram uma porta aberta para expressar sua imaginação mais ambientada na realidade local. Pude então conhecer mais essa faceta do trabalho de um dos mais importantes autores da literatura brasileira – que ajudou a construir e dinamizar a integração do Brasil com outros países que falam a língua portuguesa e que têm povos africanos na sua base de formação.

Essa condição similar gerou o mesmo efeito de reconhecimento entre nós. Uma certa empatia nas histórias de vida e no imaginário coletivo. Fico imaginando se existem mais fatos parecidos com esses na história da formação desses povos africanos. Existem homens africanos bilionários. Como em todos os continentes existem países ricos e pobres. É claro que não podemos desprezar a história de sofrimento, exploração e guerra que existe no continente e a necessidade de socorrer esses irmãos que são sofridos e estão sem esperança.

Recentemente, o escritor Mia Couto esteve de volta ao Brasil para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e mais uma vez me surpreendeu com uma simples frase: “Deixem a África contar sua própria história”. Isso bateu em mim como uma bigorna! Se pararmos pra pensar, o que realmente conhecemos sobre o continente africano, se não as informações trazidas de lá pelos povos que se meteram a colonizar o não colonizável? O que realmente se revelou da gigante e misteriosa África que pode nos dar alguma base real da sua verdadeira história? Partindo da informação de que são 61 países eterritórios, todos independentes, cada um dividido por várias etnias com dialetos, idiomas, histórias de formação e reinados muito mais antigos do que o Brasil e alguns países da Europa, ainda há muito o que se saber.

Ainda hoje, muitos pensam a África como um grande deserto. Eles existem, mas além do Saara e da Namíbia, existem muitas belezas nas savanas africanas, montanhas e rios maravilhosos, existem cidades modernas, como asque já vi. A África Oriental é riquíssima e cheia de colaborações para a formação da cultura ocidental. Existem povos na África que não têm o menor interesse em interagir com o ocidente e se bastam. Tudo o que sabemos da África são dados trazidos para nosso conhecimento de forma convencional. A partir dessas ideias, vejo como perdemos tempo na insistência em alimentar a discriminação no solo do nosso país. Uma ação fora de propósito, já que seríamos muito mais ricos se fosse incentivada a inclusão de todos os cidadãos. Penso que na atual situação do mundo, o país que tiver seu povo unido e melhor preparado garantirá seu futuro mais soberano.

ACORDA, BRASIL!

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