Oswaldo Faustino conta em sua coluna a história de vida do militante negro, José Correia Leite

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Reprodução | Adaptação web: David Pereira

 

O militante negro, José Correia Leite | FOTO: Reprodução

O militante negro, José Correia Leite | FOTO: Reprodução

Filho de mãe solteira, sua certidão não tinha o nome do pai. Mas um amigo íntimo garante que foi um senador da República para quem a mãe teria trabalhado. Sozinha com o filho, para poder trabalhar de empregada doméstica, a mãe era obrigada a deixá-lo na casa de estranhos, que o maltratavam. Sem alguém que se responsabilizasse por sua educação, o menino foi impedido de frequentar a escola.

Mesmo assim, com uma ajuda aqui e outra ali, foi aprendendo a ler e a escrever. Um dos que o ensinaram foi o amigo Jayme Aguiar com quem, aos 24 anos, ele fundou o jornal O Clarim, depois rebatizado de O Clarim d’Alvorada, que durou até Getúlio Vargas estabelecer o Estado Novo, em 1937. A vibração da escrita e a negritude lhe pulsavam nas veias, assim, após o fim da ditadura getulista, Correia Leite, Fernando Góis e Raul do Amaral criaram o jornal Alvorada, em 1946.

Não houve um só acontecimento relacionado com a população negra de São Paulo até o final da década de 1970, em que José Correia Leite não estivesse envolvido, ou pelo menos por perto. Lá estava ele, em 1931, quando foi criada a Frente Negra Brasileira, como conselheiro da entidade. Descontente com os objetivos da FNB e o comportamento da diretoria, abandonou a instituição e fundou o Clube Negro de Cultura Social e o jornal Chibata, que desceu no lombo dos que ele considerou “traidores da raça”.

Depois disso, ajudou a fundar a Associação dos Negros Brasileiros e, já na segunda metade da década de 1950, a Associação Cultural do Negro, na qual publicou a revista Niger. Como um griot, matava a sede de conhecimento de nossa geração de militantes com substanciosos depoimentos. Um dos melhores escritores negros brasileiros contemporâneos, o poeta Cuti publicou histórias contadas por ele na obra ...E disse o velho militante José Correia Leite, que deveria ser o livro de cabeceira de todos nós. Correia Leite pintava aquarelas, de cores suaves. Talvez fosse a única maneira para serenar seu espírito vibrante e guerreiro, ante as injustiças sociais.

Recentemente, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias sobre ele, da boca de Abigail Ricarda, a Dona Dadá, sua filha, que hoje vive em uma casa de repouso no bairro do Jabaquara. Aos 88 anos – a mesma idade com que o pai faleceu, em 1989 –, ela traz ainda vívidas lembranças de todos aqueles que com ele conviveram. Vida eterna à memória de José Correia Leite e aos que, como ele, ajudaram a dignificar a história do nosso povo!

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