Novo livro do escritor e poeta CUTI repete a celebração da literatura afrobrasileira

 

TEXTO: Redação | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

O livro do escritor Cuti, Kizomba de vento e nuvem | FOTO: Divulgação

O livro do escritor Cuti, Kizomba de vento e nuvem | FOTO: Divulgação

quis esta quizomba

que zomba

chora, ri, faz moganga

esta quizomba

acolhe ou tromba

ginga, tomba, levanta

canta, dança e sua

sua matriz

sede de antigas chagas?

amor

chafariz

quis esta quizomba

escrita a carvão e giz

para o preto no branco

ser mais feliz.

É com este poema que o escritor Cuti, um dos mais cultuados do país quando se fala de literatura negra brasileira, começa o seu mais novo livro, “Kizomba de Vento e Nuvem”. Ao todo, são 108 poemas divididos em três grandes temáticas: Preto no Branco, Afetos e Desafetos e Matutando, que robustecem a divulgação da dignidade social e racial da literatura afrobrasileira.

A sentimentalidade dos poemas transcende não somente o tema do racismo, algo que Cuti conhece e trata perfeitamente, mas também a questão da hierarquia social brasileira, que embora não tenha critérios estritamenteraciais, foi e continua sendo até hoje formada em sua base por descendentes de antigos escravos africanos. Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, é formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado e doutorado na mesma área pela Unicamp. Foi um dos fundadores do Quilombhoje-Literatura e um dos criadores da coleção Cadernos Negros, série na qual publicou poemas e contos em 34 dos 35 volumes lançados até 2012. Seus quatro últimos trabalhos no gênero literário colocam em várias perspectivas temas de amplo significado da literatura, envolvendo tanto a produção humana quanto as suas políticas, ideologias, discriminações de diversas ordens e outras concepções estéticas diversas.

Um destes trabalhos anteriores que tiveram forte influência neste novo projeto é “A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto”. Publicado em 2009, o livro busca a aproximação das obras de Cruz e Sousa e Lima Barreto, tão diversificadas e complexas, mas que juntas se completam. O caminho escolhido por Cuti neste projeto, ao contrário da maioria das obras do gênero, procura não focar na diferença entre a experiência subjetiva do negro e do mulato no campo da criação literária,mas sim manter a união entre os gêneros. Considerando que estas obras foram publicadas à margem do campo minado pela escravidão e pelo racismo, o sujeito étnico percorre seus textos criando uma tensão com o discursoracial dominante, numa oposição direta ou indireta. Cuti seguiu seu caminho e publicou outras obras que culminaram em “Kizomba de Vento e Nuvem”, como “Literatura negro-brasileira” (2010), “Lima Barreto” (2011) e “Quem tem medo da palavra negro” (2012). Com a base literária já definida, Cuti pôde trabalhar o universo de poemas, contos e teatro, e criar a obra do “Kizomba”. O livro marca mais um ponto para o conjunto de obras que não tomam a questão racial como ponto central, mas que também não silenciam sobre os variados e complexos tópicos relativos a estas relações. O livro também aborda outras tantas facetas da vida nacional, demonstrando a importância de a poesia ir além das questões de fundo amoroso, abarcando assuntos mais espinhosos e inusitados.

A ideia, segundo o próprio autor, é iluminar o mundo nas suas mais misteriosas cavernas. A obra é um entrelace de sonoridades, ora harmônicas, ora dissonantes, e metáforas que redimensionam com acuidade nossa percepção dos sinuosos caminhos da consciência e das emoções. A pobreza, o atraso, a opressão, o racismo, a ignorância e a degradação moral estão lá, mas de forma poética e muito mais suave do que nos livros anteriores. Trata-se de uma experiência literária afrobrasileira pura, em que o autor busca aumentar a sua própria luta, em seus próprios termos e sua própria cultura. O discurso poético de Cuti vincula-se ao do sociológico Leonardo Boff, que afirma que só quem tem na pele a opressão pode liberar os oprimidos. Eé através da poesia que Luiz Silva “Cuti” assume a voz do seu povo para o conforto, a esperança, e a força vital das indagações mundanas exteriores e interiores.

 

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