Nesta coluna, Oswaldo Faustino conta um caso de ridicularização do corpo da mulher negra. Confira

 

TEXTO: Oswaldo Faustino | FOTO: Divulgação | Adaptação web: David Pereira

A ridicularização do corpo da mulher negra | FOTO: Divulgação

A ridicularização do corpo da mulher negra | FOTO: Divulgação

Hoje, é muito comum denunciar-se o chamado bullying em nossas escolas, mas as humilhações focadas em traços africanos atravessam séculos, tal e qual o fetichismo despertado pelo corpo negro. Contudo, houve momentos em que ambos os atos chegaram ao extremo. Uma das vítimas históricas foi a sul-africana Saartjie Baartman (1789- 1815), apelidada de “Vênus Hotentote” ao ser exibida em circos pela Europa afora. Os hotentotes ou bosquímanos são indivíduos de pequena estatura, pertencentes a grupos étnicos da região sudeste da África. A história de Baartman enreda erotismo, entretenimento e racismo com curiosidade científica, escravidão e tortura.

O resultado: a destruição de um ser humano. Saartjie – diminutivo de Sarah, em africânder – era uma mulher da etnia Koisan, nascida no vale do rio Gamtoos, atual província do Cabo Oriental, na África do Sul. Ela trabalhava numa fazenda de holandeses quando foi levada para a Inglaterra, em 1810, com a promessa de liberdade e de fazer fortuna. Foi, porém, exibida num circo, como um animal, por ter uma genitália considerada exótica, típica das mulheres africanas Khoikhoi. Por um pagamento a mais, os espectadores podiam tocar-lhe o corpo, em particular suas nádegas avantajadas.

Quatro anos depois, ela foi vendida a um francês domador de feras que, além de apresentá-la enjaulada, também a explorou sexualmente e a transformou em prostituta e viciada em álcool. Saartjie morreu aos 26 anos, vítima de doença infecciosa. Mesmo depois de sua morte, seu explorador lucrou vendendo seu corpo para o Musée de l’Homme, em Paris, onde fizeram uma estátua em gesso com sua imagem e mantiveram em exibição seu cérebro e genitália, conservados em formol.

Depois de muitos apelos e embates jurídicos que duraram décadas, dos quais chegou a participar o presidente Nelson Mandela, em 2002, os restos mortais de Saartjie Baartman foram devolvidos à África do Sul para o sepultamento a que tinha direito. O povo sul-africano realizou uma grande festa, com cantos e danças para homenagear postumamente a hotentote.

Essa história real é contada no filme francês “A Vênus Negra” (2010), dirigido por Abdellatif Kechiche e protagonizado pela jovem atriz cubana Yahima Torres, em sua estreia no cinema. O longa foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 2011, e conquistou o Prêmio Igualdade de Oportunidades. Um filme triste, mas para se ver e rever. Na subida dos créditos finais, há imagens documentais da festa sul-africana pela devolução de Saartjie à sua terra natal.
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