A terra tremeu e o céu mudou de cor

Zulu Araujosetembro 2, 20205 min
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A notícia percorreu o mundo com a velocidade de um raio e tomou a todos de surpresa – o ator de Pantera Negra, Chadwick Boseman morreu. O grande astro que encarnou o sonho de milhões de jovens negros mundo afora, era de carne e osso e a vida, mais uma vez, nos pregou uma peça. A comoção foi espantosa e retirou muita gente do torpor que a Pandemia do Coronavirus tem nos envolvido, em especial a juventude.

A impressão que tive era que, de repente, não mais que de repente, havíamos sido teletransportados, tanto para o cenário de Wakanda, onde Chadwick fez o sonho de milhões de garotos/as se transformar em realidade, quanto para o pesadelo de Kenosha, cidade do estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, onde a realidade racista se impôs, mais uma vez, atingindo um jovem negro desarmado, com sete tiros pelas costas.

Era o sonho de cidadania indo parar na antessala da morte e a ficção de Wakanda indo parar no cemitério. Por isso mesmo, de Lewis Hamilton a Lázaro Ramos, todos choraram e reverenciaram a dureza da vida. E, neste sentido, qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência, mas a pura realidade.

Embora Wakanda seja uma ficção onde o sonho de igualdade e fraternidade havia se retroalimentado, esse sonho era e é tão forte, tão necessário para cada um de nós, que a terra tremeu pela via dos soluços e lamentos vindos de todas as partes do mundo pela morte do herói. Foi uma tristeza enorme saber que um cara com tanto talento e tão promissor partia para o andar de cima de forma tão rápida.

E quando sua vida foi sendo detalhada, vimos que mais uma vez, a vida imitava a arte. Pois não é que nos últimos quatro anos o ser humano Chadwick Boseman que também era roteirista e diretor de cinema, viveu de forma heroica, situação essa nunca imaginada por seus milhões de fãs?

Ele não apenas suportou uma doença devastadora que é o câncer de colo retal, com a força e temperança de um herói de verdade, como cumpriu sua missão no planeta Terra de forma admirável, interpretando magistralmente o personagem central do filme, que é até o momento, o maior recorde de bilheteria da Marvel, com 1 bilhão e trezentos milhões de dólares arrecadados.

Nesse período, não só deu vida a um personagem que virou lenda, mas para além disso, tanto ele quanto o personagem, se transformaram em exemplos de que “a vida vale a pena quando a alma não é pequena.”

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Zulu Araujo

Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

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Há 24 anos no mercado, a pioneira e mais antiga publicação negra do Brasil.

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