Bolsonaro usa nome de Marielle Franco como álibi infame e grotesco

Hedio Silva Jrabril 25, 20201 min
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Num mimimi patético e que acabou indo parar no aquecedor da piscina do Palácio do Alvorada, o Messias revelou hoje em rede nacional que sua chateação com Sérgio Moro devia-se ao fato de que a Polícia Federal teria dispensado mais atenção ao “caso Marielle” do que aos mandantes da dita facada cujo agressor foi preso em flagrante.

Interessante notar que alguns fatos foram cuidadosamente “esquecidos” por Messias. Vejamos alguns deles: onde está Fabrício Queiroz e por que cargas d’água até agora ele não se apresentou para explicar o milagre da multiplicação do dinheiro no Gabinete de Flávio Bolsonaro? Por que Queiroz emprestou dinheiro do Messias, sem contrato e sem declaração à Receita, mas depositou parte da bufunfa na conta da primeira-dama? Por que o 01, que teria herdado do pai a aversão genética à “patifaria” e à “velha política” insiste em impedir que a Justiça investigue as acusações que pesam contra ele?

A respeito destes e tantos outros assuntos nebulosos, subitamente Messias passou a entender que “a verdade vos aprisionará” e acabou optando por uma ida rápida ao banheiro – “afaste de mim esse cálice”!

Mas o Messias foi além, ao apresentar como atestado de idoneidade o fato de que ele religiosamente desliga o aquecedor da piscina do Palácio do Alvorada, sem explicitar se o faz pessoalmente ou quiçá com auxílio de seu amigo Hélio Negão.

Eis a sinfonia do branco lúcido: transportar familiares e bajuladores em helicópteros da FAB para uma festa de casamento pode; já quanto ao aquecedor da piscina….melhor desligar isso daí neh?!?!?!

Para completar o show de indignidade, infâmia e hipocrisia, o mito pretendeu fazer crer que a Polícia Federal teria destinado mais atenção ao “caso Marielle” (sobre o qual já tratamos nesta coluna da Raça) do que à facada.

Se tivesse consultado Sérgio Moro antes de escrever essa esplêndida e convincente defesa, o mito teria descoberto que a responsabilidade pela apuração do caso encontra-se sob responsabilidade da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Por ora, a Polícia Federal  não pode investigar o assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes por uma razão jurídica: o processo denominado “federalização” das investigações depende de deliberação do Superior Tribunal de Justiça e este ainda não autorizou o ingresso da Polícia Federal no caso.

O mito poderia, portanto, ter defenestrado Moro por este ter trocado “cônjuge”, por “conge”, mas não por ter destinado atenção demasiada a um assunto que sequer estava sob sua esfera de competência.

Ademais, para Messias, a vida de Marielle Franco tem o mesmo valor das vidas que seriam ainda mais eliminadas caso ele tivesse aprovado o projeto de lei da excludente de ilicitude, que teria significado verdadeira carta branca para maus policiais assassinarem ainda mais pretos e brancos nas periferias.

Quem sabe com a indicação de um ministro terrivelmente evangélico para o Supremo Tribunal Federal, o mito consiga convencer os dez outros ministros da Corte de que sendo portador de doença mental grave ele não possa ser enviado para a prisão, mas sim ungido com internação em um manicômio judiciário!

*Os artigos assinadas não refletem necessariamente a opinião da RAÇA, sendo de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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Hedio Silva Jr

Advogado, mestre e doutor em Direito pela PUC-SP, ex-Secretário de Justiça do estado de São Paulo, Coordenador-Executivo do IDAFRO - Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras e colunista da Raça

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