Na semana passada, não se fala em outra coisas nos sites de fofoca.

A apresentadora Glória Maria confessou que já teve um caso com Gerard Butler, ator conhecido por protagonizar o filme 300. Seria mais uma notícia sem importância do mundo das celebridades se a reação do público de espanto à escárnio. Afinal, Glória Maria é mulher, negra, mãe e tem mais de 50 anos e ter um caso com um ator hollywoodiano e branco (e, além de tudo, provavelmente mais novo) é inconcebível em um Brasil racista como o nosso.

A solidão da mulher negra é um tema muito delicado e, quando pensamos que mal conseguimos avançar na questão do racismo no Brasil, falar sobre tais assunto ficam até obsoletos. O fato é que a mídia consegue facilmente nos convencer do casos entre Thayla Ayala, (a famosa "quem?" jovem e branca), mas sobre Glória Maria esse tipo de notícia cai no descrédito.

O estranhamento da confissão de Glória Maria é mais estrutural do que você pensa. Porque desde crianças somos ensinados que a menina negra é aquela que os meninos não querem namorar, porque belas são apenas as brancas. E neste caso, não basta ser só negra: quanto mais melanina, mais traços negros, mais cabelos cacheados, menor suas chances.

Este tema me é muito caro, pois só depois de adulta que percebi o quanto isso se reflete a mim e a todos à minha volta. Como eu tenho mais probabilidade de arrumar um namorado que outra amiga com pele mais escura. Como nenhum dos meus amigos nunca tiveram uma namorada negra. Como a solidão na adolescência fez acreditar que muitas de nós é que éramos feias.

É por isso que a declaração de Glória Maria dói em certas pessoas que se negam a admitir a beleza negra em qualquer idade. Por isso que certo deputado andou reclamando que sua ex o trocou por um médico cubano. Porque negros não deveriam ter relacionamentos e, se tiverem, apenas com aqueles que tem a mesma melanina.

A entrevista de Glória Maria para o canal do YouTube de Matheus Mazzafera serve para pensarmos sobre as reações que temos diante de certos fatos. A jornalista contou "Ele veio lançar o filme ‘300’ com o Rodrigo Santoro aqui no Brasil, eu fui à festa de lançamento e a gente se conheceu. Parece que ele gostou bem de mim e saímos de lá juntos e ficamos um pouco juntos. Ele é um amor. Não vou negar porque eu sou livre, dona da minha vida, e ele também é, aquele gato. Não foi bom, não. Foi ótimo”, (a declaração de Gloria Maria sobre Gerard Butler acontece a partir de 4m38).

A lição que esta pequena história guarda é sobre o quanto a mulher negra se liberta quando vira as costas a todos esta sociedade que não a enxerga. O quanto podemos nos relacionar com quem quisermos, que todos temos amor e merecemos amor.

Bem resolvida, Glória mostrou como se dão as relações de afeto em sua vida, principalmente ao ser questionada sua vida pessoal. “Solteira média. Quando ele está aqui, eu estou namorando. Quando ele vai embora para o país dele, porque ele não mora no Brasil, eu estou solteira”, disse. Sua “girl crush” é Halle Berry, e, questionada se ficaria com a atriz, a jornalista respondeu: “Por que não?”. Sim, Glória pode tudo.

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